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Sunday, May 3, 2015

Os encantadores


Há histórias de num amanhecer de nevoeiro ele avançar pela cacimba, de mão aberta, e encontrar a língua húmida e o bafo quente de um cavalo branco. Há histórias de cavalos lusitanos, inteiros, rebeldes e temperamentais - o mesmo cavalo que se recusava a ser montando, que estacava imóvel durante horas; que deitava ao chão homens feitos – o seguirem como cachorros, a mastigar pachorrentamente o seu velho chapéu de palha. Cavalos perdidos nas montanhas do Gerês, nas planícies alentejanas, nos Alpes da Áustria, na estepe cazaque ou no deserto da Jordânia vêm conversar-lhe. Coisas só deles, de outros tempos, de outras vidas, de quando- «Allah tomou uma mão cheia de El Marees, o vento Sul, e bafejando-o criou o cavalo, "Eu criei-te. Para que sejas único terás o olhar da águia, a coragem do leão e a velocidade da pantera. Do elefante dou-te a memória, do tigre a força, da gazela a elegância. Os teus cascos terão a dureza do sílex e o teu pêlo a maciez da plumagem da pomba. Irás saltar mais do que o gamo, e terás do lobo o faro. Serão teus à noite os olhos do leopardo, e orientar-te-às como o falcão, que regressa sempre a casa. Serás incansável como o camelo, e fiel como o cão! E para sempre te dou a beleza da rainha e a magestade do rei. Hossane, que a doçura da vitória repouse sobre os teus olhos. Que carregues no teu dorso tesouros. Que a tua sela seja o meu templo. Que voes sem possuir asas e conquistes sem o uso de nenhuma espada.» De quando o cavalo correu selvagem pelo deserto. De quando o destino do Árabe foi tecido na história do Ocidente. Num entardecer de Verão no deserto da Jordânia, nos “Estábulos do Rei”, encontra os cavalos. São encontros, ou, correndo o risco de ser mística, reencontros. Escolhemos dois cavalos, ele monta a égua branca de crina entrançada, Shakira(!?). À saída do estábulo conversam, ela em relinchos, saltos, volteios, resistências e cedências, como jogos amorosos. Ele concentrado, transpirado, testa-a, fala-lhe naquela língua só deles, puxa-lhe as rédeas, bate-a nos flancos. Ela rodopia, resfolega, coceia, galopa, trota e imobiliza-se. Passam os minutos. Namoram. Ele já nem usa as rédeas ou os estribos, ela move-se, suave, ao ritmo da voz dele, sem hesitações, sem dúvidas. Ele fala-lhe baixinho, «Passo. Galope! Oooh!» Olha-me, «Vamos?». Eu observava apenas, o cavalo que monto já tentou voltar para trás várias vezes e agora fica imóvel quando tento um passo. É fim de tarde, está muito calor, no imenso deserto desenham-se dunas pedregosas à esquerda e à direita, formando uma clareira larga, imensa. As dunas são cinza, o pó que se levanta da areia, dourado. Avanço a passo, arriscando um pequeno trote. Eles galopam. Em dias assim, no deserto, há visões de cavalos indomados a correr pelas dunas do Wadi Rum, cabeça arqueada, cauda levantada, orgulhosos. Ele monta o cavalo lendário. Sentamo-nos no al-munákh (lugar onde o camelo se ajoelha), ponto de encontro e de conversa dos beduínos, tocamos os cavalos. Os cavalos beduínos partilham com seus donos a tenda, a comida, o estatuto. Entre as tribos, de tempos a tempos, uma égua dá à luz um potro com uma mancha no ombro. Os beduínos acreditam que esta é a marca da protecção de Allah. «Há muitos anos no deserto da Arábia vivia um guerreiro beduíno que possuía uma égua especial. A égua acompanhava-o sempre e podia mesmo ler os seus pensamentos, permitindo a vitória nas batalhas e suscitando a inveja das tribos. Um dia numa luta o beduíno foi ferido gravemente. Com o seu amo inconsciente e a quilómetros do acampamento, a fêmea carregou-o caído sobre o seu ombro, com cuidado. Avançou durante dias sem comida ou água. Quando a corajosa égua chegou ao seu destino estava exausta e o seu amo estava morto. Removeram o corpo, no ombro havia uma mancha de sangue. Perderam o seu sayyd, o chefe, mas estavam gratos pela devolução do corpo à família. A viagem foi dura, a égua estava prenha, temiam. Mas na Lua Nova o potro nasceu vigoroso, saudável de qualidade excepcional. No seu ombro uma mancha, idêntica à que o sangue do amo tinha deixado no ombro da mãe.» Toco o focinho quente de um alazão. Abre os lábios e abocanha-me suavemente os dedos. Gosto de cavalos. Na minha primeira aula de hipismo experimentei o passo, o trote e o galope, em cercado e em campo aberto. Na segunda o lusitano rebelde aceitou-me no seu dorso por respeito ao amo e depois de alguns quilómetros a trote paciente fugiu em galope veloz pelos pequenos montes alentejanos, agarrei as rédeas e na curva perdi os estribos, caí. Na quinta aula a égua que montei tinha sido mãe, e a meio da encosta as saudades do potro falam mais alto - “onde é que já vi isto?” - o galope é ainda mais veloz, o corpo ágil esquiva-se dos sobreiros cujos ramos me puxam os cabelos, agarrei as rédeas e ao saltar um arbusto perdi os estribos, caí. Monto o al-hisan, hesitante. Afago-lhe as crinas, sussurro-lhe palavras doces, não há nada mais desagradável que montar um cavalo que não gosta do seu cavaleiro. As lendas cantam o cavalo árabe, só os felizardos que já o montaram podem confirmá-las. «Depois de muitos dias no deserto a tribo de beduínos libertou as éguas para que corressem a saciar a sede numa nascente. Como teste à sua lealdade as fêmeas foram chamadas antes de chegarem à água. Das muitas éguas só cinco responderam sem beberem. Ficaram conhecidas como Al Kahmsa (as cinco) e o termo passou a significar pureza de sangue para os povos beduínos.» Acreditam que o primeiro cavalo criado por Allah foi uma fêmea e que quando esta foi oferecida a Ismael, filho de Maomé, por magia deu à luz um cavalo adulto. Acreditam que a égua é mais valiosa, que dela a cria recebe o espírito, a mente, a alma, o original toque divino de Allah; e do macho as qualidades físicas. É fim de tarde, no deserto da Jordânia, contam-se histórias, cantam-se baladas. As mulheres gritam ha-WEEE-ha! nos seus zaghroutah. Ele sai para galopar nas dunas. Há poemas que o cantam como um cavalo lusitano. Ao meu encantador de cavalos.

É ?masculino?, dizem-me


Tomava um café, com amigos, na esplanada da Graça. Numa mesa ao nosso lado três bonitas portuguesas. Passam duas exuberantes espanholas. Conversam no balcão quatro fatais italianas. Bebem limonadas inglesas vitorianas. Cantam bons-dias bronzeadas brasileiras. Ri estridentemente uma cabo-verdiana. As cabeças dos meus acompanhantes masculinos vão-se voltando, em vertiginosos torcicolos. - Ai que chatice, parem lá com isso que não se consegue conversar! - protesto enciumada. Mas é “masculino”, dizem-me: - Ah! O que foi? O teu namorado não olha para outras mulheres? - ...?! A primeira vez que visitei um país islâmico fiquei espantada com a quantidade de mulheres que usam o véu. Não só no interior, nas aldeias, neste ou naquele estrato social, mas em todo o lado. Mesmo nas grandes cidades, as cabeças femininas descobertas contam-se pelos dedos de uma mão. Como conseguiram convencer tantas pessoas a tapar o corpo, os cabelos, muitas vezes todo o rosto e não raramente os olhos? O Cairo por exemplo tem 18 milhões de habitantes, como é possível? Caminho pelas ruas vestida com “modéstia”, como aconselha o corão (nunca hei-de compreender as mulheres que de férias, seja qual for o destino, clima ou cultura se passeiam de calções), mas os meus cabelos são ofensivos. Visito uma mesquita na Jordânia, na entrada encontro uma mulher vestida com uma burqa azul noite, olhos pintados de preto, dramáticos. Olhamo-nos, o nosso encontro é fugaz, interrompido pelo marido que a repreende, ela volta-se de imediato, desaparece pela mesquita, a beleza esvoaçando nos panos que a seguem. Numa rua de Damasco beijo Telmo na testa, sou insultada por um homem que passa. No mar vermelho sou observada, nalgumas mesquitas proibida de entrar. E por todos os homens a quem Telmo se dirige, sou ignorada. Não é raro e nem assim tão estranho que o egípcio que cobra entradas no museu, conduz o taxi, é dono da loja ou vende souvenirs na rua proponha preços e mulheres como moeda de troca. E com o já clássico: «quantos camelos pela tua mulher?» brincam com o ocidental, que sorri, na cumplicidade do sangue. É “masculino”, dizem-me. Na fronteira do Sudão pergunta o oficial: «Esta é sua mulher? Não está mal, eu tenho três!» E no Sudeste da Tanzânia, «Nós aqui não somos muito rígidos com o Corão, eu, por exemplo tenho sete mulheres (em vez das quatro permitidas).» À entrada de um museu no Egipto, Telmo ausenta-se por um minuto, o grupo de homens que hà pouco saudou respeitosamente agora avança para mim, a cuspir caroços de tâmaras: Hi! Tal como a nossa visão dos muçulmanos é muitas vezes deturpada pelo que vemos nos noticiários, a visão que por aqui têm das ocidentais é mais ou menos a que vende o cinema americano. Comenta um Tanzanino numa rua de Zanzibar: - Sabes que se eu sair de casa para ir namorar outra mulher tenho de dizer à minha esposa e ela pode dizer que não!? - responde Telmo - - Pois... compreendo o teu problema, mas eu para fazer isso no meu país teria de me divorciar. E numa pequena aldeia do Cazaquistão os jovens perguntam mais: - É verdade que no vosso país podem por exemplo estar com duas mulheres ao mesmo tempo, na cama? - Sim... mas é complicado sabes, tem toda a gente de querer... Na Turquia à entrada de um Hamman (banho) os homens olham-me com desprezo, e quando entro na zona mista de enorme piscina e bancos de mármore, todos abandonam a sala. Na Tanzânia os indianos convidam Telmo para fumar shisha, as mulheres não estão presentes, chama-me: - Anda para perto de mim, eles são muçulmanos mas eu não sou. - sento-me. Conversam, o tabaco é perfumado, num dos muitos cortes de energia aproveito para provar o sabor adocicado, a luz volta e sou apanhada em flagrante. Não mais tocam no cachimbo de água. Sentados numa esplanada no Cairo a comer felafel conversamos com um casal de amigos egípcios. Passa um grupo de mulheres, o olhar dele acompanha-as: - Estou a ficar velho, Telmo, tenho de me casar outra vez. Olho-o, sem palavras. Ela baixa os olhos no véu cor de mel. Bom, aqui é normal - penso para mim. Observo-a melhor e não parece normal. Reconheço a mágoa, a desilusão, o ciúme - os mesmos sentimentos que imagino em mim. Não diz nada. Eu também não, nem saberia como comentar esta “desproposta” de casamento. Baixo com ela os olhos, sorrio sem razão. «Os homens têm autoridade sobre as mulheres porque Deus os fez superiores a elas e porque gastam de suas posses para sustentá-las. As boas esposas são obedientes e guardam a sua virtude conforme Deus estabeleceu. Aquelas de quem temeis a rebelião, exortai-as, bani-as da vossa cama e batei nelas. Deus é grande.» 4:34* (Alcorão) Vamos tomar chá a casa dos nossos amigos, ela mostra-me o quarto do casal e, quando compõe o véu, os cabelos. Cabelos longos, escuros, fortes, brilhantes. Cabelos valiosos como tesouros guardados apenas para o seu rei. Olho para os meus cabelos soltos, parecem tão banais. Penso no que sentirão estes homens quando lhes são revelados os segredos - não falo das outras exclusividades do marido que até pela Europa ainda são moda (pelo menos nalgumas zonas) mas de coisas tão banais para nós como os cabelos, os braços, as pernas? Que nestas mulheres nunca foram vistas por outro homem, que nenhum outro olhará. Como se sentirão? Os nossos amigos são educados, esclarecidos, falam línguas e viajam – o marido conversa connosco durante todo o jantar, está à vontade, cumprimenta-me, toca-me, fala-nos dos seus momentos preferidos: - Fumar shisha no terraço, tê-la a dançar para mim. Ela baixa os olhos e retira-se, envergonhada. Á saída do hotel passa por nós uma mulher envolta em panos brilhantes, verde esmeralda, a cabeça de Telmo segue-a. Ah! Homens!

Monday, March 23, 2015

não olhes para trás



Jordânia, vale de Siddim. Contam-nos os hospitaleiros descendentes de Lot que os habitantes deste vale ofenderam Deus e o poderoso os castigou submergindo tudo. Estacionamos o jipe, ao nosso lado alemães, ingleses, árabes sauditas e espanhóis. Pagamos entrada para o Mar Morto. Olhamos o enorme lago (mais de mil quilómetros quadrados) de sal e betume espalhado a leste do deserto de Judá; aqui chamam-lhe Al Bahr al Mayyit. Podemos ver na outra margem as montanhas de Israel para quem é Yam ha-Melah. Os gregos diziam que gases venenosos se desprendiam destas águas, enquanto os árabes garantiam que as aves ao tentar sobrevoá-las se precipitavam subitamente, sem vida. Visto um fato de banho debaixo da túnica. Visto um fato de banho debaixo dos olhares gulosos dos jordanos que alugam guarda-sóis. Nas espreguiçadeiras deitam-se mulheres de burqa. Pelas margens brincam árabezinhos. Está sol. Avanço para o mar de sal. A experiência promete ser única (isso é garantido, todas são). Avanço lentamente, há em todas as pessoas um silêncio especial apenas perturbado pelos gritos de uma espanhola: «pero que es maravilloso, mira que flutuo! Ah! Ah! Iiiih! e es mui bueno para la piel, no? voi quedar-me aqui, como sera para el pelo, hã?» O chão está coberto de seixos escuros. A água é quente. Monges diziam que o seu nome é inferno, que as suas águas são quentes porque sob ele arde o fogo das furnalhas de Satanás. Que nas suas profundezas vivem os danados castigadas pelo divino. Que é impuro. É alimentado pelo Rio Jordão mas garantiam que as águas sagradas não se misturam com as desta chaminé infernal, são absorvidas pela terra antes de se encontarem. A água é espessa, turva, de cheiro indefinido. Os pés avançam a custo, colando e descolando do fundo pegajoso, e, logo que passa a linha da anca, a espanhola tem razão, flutuo! É impossível pôr os pés no chão e é difícil acreditar que se deva ao sal, a força da água é estranha. Não é possível nadar, não há suficiente corpo dentro da água. E o desiquilíbrio, por mais que o desafie, não acontece. Telmo diz-me que qualquer gota que entre para os olhos é extremamente doloroso, por isso não é em saltos e jogos de vólei que passo os meus minutos nas águas do mar Morto. Como descrevê-lo? É estranho. É difícil entrar, como se o mar se recusasse a aceitar o volume do meu corpo, que perturba o seu. Depois de conseguir avançar, de pés no ar, como um sapo espalmado e inerte, flutuo. Não acontece mais nada, flutuo. Rabis diziam que homens lançados nestas águas mesmo que aqui ficassem durante dias nunca se afogariam, que aqui o ferro flutua, e as penas se afundam. Flutuo. Não consigo pensar se é bom ou não para a pele e decido não molhar os cabelos. Neste mar a concentração de sal é 10 vezes superior à dos outros oceanos. Qualquer peixe que nele entre morre imediatamente. Mas dizem que nestas águas mortas vive Tirus, uma serpente monstruosa de veneno letal, que brilha como ferro em brasa, que quando morde um cavalo mata também o seu cavaleiro. A água sente-se na pele como um ser, que se agarra a nós, que nos apalpa, que se espalha no nosso corpo como uma camada de creme espesso. Provo a água amarga. Diziam ímans que as frutas colhidas nestas margens, embora de aparência deliciosa, tinham no seu interior cinzas. A sudeste daqui ergue-se Jebel Usdum, a Montanha de Sodoma, feita de sal. Aqui o vento e a água esculpem pilares, figuras. Aqui, antes, habitavam homens cruéis e impuros. «Certa vez, Plotit, filha de Lot, alimentou um mendigo. Os outros viram: tiraram-lhe as roupas, cobriram-na de mel e ataram-na sobre a muralha da cidade, para que morresse picada pelas abelhas.» Sanhedrin 109 Ofendem deus, deus castiga. Lot é poupado graças à sua hospitalidade: «Salva-te, se queres viver não olhes para trás, não te detenhas na planície, foge para a montanha.» Génesis 19:17 «O Senhor fez cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e fogo. A mulher de Lot olhou para trás e imediatamente se transformou numa coluna de sal.» Génesis 24, 26 É verdade, “sempre, em todo o lado, para todos”. Os judeus, cristãos e muçulmanos estão de acordo: Nas margens do Mar Morto há uma estátua de sal que aprisiona o corpo e a alma da mulher de Lot. «Eu vi-a, a estátua existe ainda hoje», acreditam. Mesmo que factos o questionem: se nas mutações do vento e das águas, se apresenta por vezes enorme, com mais de dois metros, de fé inabalada afirmam os crentes: «existiam gigantes nesses tempos». Se acontecia que se formava num lugar e depois num outro - «significa então que a mulher de Lot ainda caminha». Se várias estátuas apareciam em grupo isso só tornava o mistério mais denso. «Nós visitámos o sítio entre o mar e a montanha, não conseguimos ver a estátua porque estávamos demasiado longe; mas vimo-la, com a força da fé, porque acreditamos nas Sagradas Escrituras que falam dela; e ficámos maravilhados». Os crentes visitam-na em peregrinação de fé, vêem-na, de costas voltadas para o céu, tocam-na, arranham-na, põem um pedaço na boca e todos asseguram: “sabe a sal”. Faço o meu caminho para fora das águas. Digo-o assim porque não nado ou sequer flutuo, não sei, avanço, cabeça e pés empinados fora de água, como um arco invertido. A custo, como o tal sapo dentro de uma tigela de gelatina que solidifica. Na saída procuro um seixo bonito - gosto de coleccionar estas coisas – o Mar Morto acompanha-me, uma camada de sal, mole e grossa, mancha-me os braços, as coxas, a testa. Uma camada que seca, faz comichão e pica. De acordo com o Talmud, estou coberta de Melach Sedomit, sal sodômico, o sal enviado pelo céu, pelo senhor. Envolvo-me em lama no lugar mais baixo do planeta. O sal, a serpente, os danados envolvem-me. Espalho as histórias d’O Livro. Mergulho com gosto nas piscinas das margens do mar morto. No fundo abro os olhos, como podem esta e aquela água ser o mesmo elemento? Compro cremes de fórmula La mer a preço Nivea. Seguimos por uma das mais antigas estradas do mundo, a auto-estrada do Rei, sem olhar para trás.