Monday, March 23, 2015

não olhes para trás



Jordânia, vale de Siddim. Contam-nos os hospitaleiros descendentes de Lot que os habitantes deste vale ofenderam Deus e o poderoso os castigou submergindo tudo. Estacionamos o jipe, ao nosso lado alemães, ingleses, árabes sauditas e espanhóis. Pagamos entrada para o Mar Morto. Olhamos o enorme lago (mais de mil quilómetros quadrados) de sal e betume espalhado a leste do deserto de Judá; aqui chamam-lhe Al Bahr al Mayyit. Podemos ver na outra margem as montanhas de Israel para quem é Yam ha-Melah. Os gregos diziam que gases venenosos se desprendiam destas águas, enquanto os árabes garantiam que as aves ao tentar sobrevoá-las se precipitavam subitamente, sem vida. Visto um fato de banho debaixo da túnica. Visto um fato de banho debaixo dos olhares gulosos dos jordanos que alugam guarda-sóis. Nas espreguiçadeiras deitam-se mulheres de burqa. Pelas margens brincam árabezinhos. Está sol. Avanço para o mar de sal. A experiência promete ser única (isso é garantido, todas são). Avanço lentamente, há em todas as pessoas um silêncio especial apenas perturbado pelos gritos de uma espanhola: «pero que es maravilloso, mira que flutuo! Ah! Ah! Iiiih! e es mui bueno para la piel, no? voi quedar-me aqui, como sera para el pelo, hã?» O chão está coberto de seixos escuros. A água é quente. Monges diziam que o seu nome é inferno, que as suas águas são quentes porque sob ele arde o fogo das furnalhas de Satanás. Que nas suas profundezas vivem os danados castigadas pelo divino. Que é impuro. É alimentado pelo Rio Jordão mas garantiam que as águas sagradas não se misturam com as desta chaminé infernal, são absorvidas pela terra antes de se encontarem. A água é espessa, turva, de cheiro indefinido. Os pés avançam a custo, colando e descolando do fundo pegajoso, e, logo que passa a linha da anca, a espanhola tem razão, flutuo! É impossível pôr os pés no chão e é difícil acreditar que se deva ao sal, a força da água é estranha. Não é possível nadar, não há suficiente corpo dentro da água. E o desiquilíbrio, por mais que o desafie, não acontece. Telmo diz-me que qualquer gota que entre para os olhos é extremamente doloroso, por isso não é em saltos e jogos de vólei que passo os meus minutos nas águas do mar Morto. Como descrevê-lo? É estranho. É difícil entrar, como se o mar se recusasse a aceitar o volume do meu corpo, que perturba o seu. Depois de conseguir avançar, de pés no ar, como um sapo espalmado e inerte, flutuo. Não acontece mais nada, flutuo. Rabis diziam que homens lançados nestas águas mesmo que aqui ficassem durante dias nunca se afogariam, que aqui o ferro flutua, e as penas se afundam. Flutuo. Não consigo pensar se é bom ou não para a pele e decido não molhar os cabelos. Neste mar a concentração de sal é 10 vezes superior à dos outros oceanos. Qualquer peixe que nele entre morre imediatamente. Mas dizem que nestas águas mortas vive Tirus, uma serpente monstruosa de veneno letal, que brilha como ferro em brasa, que quando morde um cavalo mata também o seu cavaleiro. A água sente-se na pele como um ser, que se agarra a nós, que nos apalpa, que se espalha no nosso corpo como uma camada de creme espesso. Provo a água amarga. Diziam ímans que as frutas colhidas nestas margens, embora de aparência deliciosa, tinham no seu interior cinzas. A sudeste daqui ergue-se Jebel Usdum, a Montanha de Sodoma, feita de sal. Aqui o vento e a água esculpem pilares, figuras. Aqui, antes, habitavam homens cruéis e impuros. «Certa vez, Plotit, filha de Lot, alimentou um mendigo. Os outros viram: tiraram-lhe as roupas, cobriram-na de mel e ataram-na sobre a muralha da cidade, para que morresse picada pelas abelhas.» Sanhedrin 109 Ofendem deus, deus castiga. Lot é poupado graças à sua hospitalidade: «Salva-te, se queres viver não olhes para trás, não te detenhas na planície, foge para a montanha.» Génesis 19:17 «O Senhor fez cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e fogo. A mulher de Lot olhou para trás e imediatamente se transformou numa coluna de sal.» Génesis 24, 26 É verdade, “sempre, em todo o lado, para todos”. Os judeus, cristãos e muçulmanos estão de acordo: Nas margens do Mar Morto há uma estátua de sal que aprisiona o corpo e a alma da mulher de Lot. «Eu vi-a, a estátua existe ainda hoje», acreditam. Mesmo que factos o questionem: se nas mutações do vento e das águas, se apresenta por vezes enorme, com mais de dois metros, de fé inabalada afirmam os crentes: «existiam gigantes nesses tempos». Se acontecia que se formava num lugar e depois num outro - «significa então que a mulher de Lot ainda caminha». Se várias estátuas apareciam em grupo isso só tornava o mistério mais denso. «Nós visitámos o sítio entre o mar e a montanha, não conseguimos ver a estátua porque estávamos demasiado longe; mas vimo-la, com a força da fé, porque acreditamos nas Sagradas Escrituras que falam dela; e ficámos maravilhados». Os crentes visitam-na em peregrinação de fé, vêem-na, de costas voltadas para o céu, tocam-na, arranham-na, põem um pedaço na boca e todos asseguram: “sabe a sal”. Faço o meu caminho para fora das águas. Digo-o assim porque não nado ou sequer flutuo, não sei, avanço, cabeça e pés empinados fora de água, como um arco invertido. A custo, como o tal sapo dentro de uma tigela de gelatina que solidifica. Na saída procuro um seixo bonito - gosto de coleccionar estas coisas – o Mar Morto acompanha-me, uma camada de sal, mole e grossa, mancha-me os braços, as coxas, a testa. Uma camada que seca, faz comichão e pica. De acordo com o Talmud, estou coberta de Melach Sedomit, sal sodômico, o sal enviado pelo céu, pelo senhor. Envolvo-me em lama no lugar mais baixo do planeta. O sal, a serpente, os danados envolvem-me. Espalho as histórias d’O Livro. Mergulho com gosto nas piscinas das margens do mar morto. No fundo abro os olhos, como podem esta e aquela água ser o mesmo elemento? Compro cremes de fórmula La mer a preço Nivea. Seguimos por uma das mais antigas estradas do mundo, a auto-estrada do Rei, sem olhar para trás.

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