*na nossa escrita inspirámo-nos nos contos de Tchékov para melhor exprimir o nosso estado de espírito na segunda travessia da Rússia
Telmo viaja na Rússia com a sua jovem mulher Filipa. Levam consigo o cão, claro, não poderiam separar-se do cãozinho. Vêem do Cazaquistão, vão para a Turquia.
Numa manhã de Inverno, com as golas dos casacos levantadas e chapinhando na lama, arrastavam-se Telmei Mariotrich e Filipenka Joseevna pelas filas da fronteira Prigorodnyy. O estado de ânimo de Telmei era sombrio, como sempre acontecia com ele na Rússia.
Numa das ruelas viu formar-se uma fila de pessoas à entrada de um banco, vigiado por quatro guardas. Já antes Telmei Mariotrich vira por várias vezes esta situação, que lhe incitava sempre compaixão e embaraço, mas desta vez o encontro impressionou-o sobremaneira, de um modo estranho. Por alguma razão pareceu-lhe que também a ele podiam agrilhoar, fazendo-o esperar assim, pisando a lama.
Esmagados entre Cazaques e Russos aguardaram na fila de controle de passaportes. É a vez de Janocas (Filipenka Joseevna) entregar o seu e se colocar atrás da linha amarela, em frente ao espelho, a olhar para a câmara. A Sra. atrás do balcão estava treinada para o efeito - detectar passaportes falsos. Observou atentamente a fotografia e o rosto de Janocas, verificava os olhos, o queixo, a testa. Segue-se a vez de Titéu (Telmo Mariotrich), a Sra. olha-o fixamente um momento e faz um telefonema. Telmei e Filipenka estranham, «Porque telefona ela? Para onde?», do interior avança Ivan, jovem de suiças pretas, olha para o passaporte, um tempo, as sobrancelhas espessas de Titéu seguram gotas de suor, por alguma razão transpira, como se fosse culpado e o passaporte fosse de facto falso, não é, mas ele transpira. O oficial acede, avançam.
Na alfândega avançam os Dimitri em uniformes de sarja verde «Declaratzia!», gritam, enquanto estendem o formulário - Telmei e Filipenka já conheciam este papel que obriga a tudo declarar ou a correr o risco de tudo deixar na fronteira de saída do país - preenchem a medo.
Já na rua os três oficiais de alfândega abrem a mala do jipe, entre o confuso Russo o casal percebe a palavra “importação” e puxam do passaporte para, mostrando os vários vistos da viagem, tentar explicar que nada era para importação, mas tudo para uso pessoal. Tendo em conta a quantidade era sempre um pouco difícil para os oficiais acreditar nesta conversa, e foi aqui que conheceram russo, “o gordo”. O plano dele era o habitual: intimidar, ameaçar, conseguir dinheiro. Avança decidido - dente de ouro posto em evidência pelo sorriso falso - para convencer Filipenka, Telmei e os oficiais, que até estavam a facilitar, que a carga tinha toda de ser inspeccionada e pesada. Telmei e Filipenka baixam a cabeça, voltam à sala e tentam demover o oficial doscanner, mas “o gordo” tinha, senão melhor retórica, definitivamente melhor Russo, e repete que segundo a lei têem direito a transportar apenas 35 quilos cada e que por cada quilo a mais têem de pagar quatro euros. Seguem para o jipe, Telmei murmurando entre dentes «Ele pensará que isto é um aeroporto?!». Descarregam todos os sacos e malas empilhando-os no chão enlameado da fronteira. “O gordo” vigiava os bens, aposto que para escolher algum para si, o seu colega fazia passar tudo doscanner para a balança e anotava metodicamente os valores num caderninho. Os sacos eram muitos e havia ainda os documentos do jipe, do cãozinho, câmbios e seguros, “o gordo” tudo acompanhava, ganância a empertigar-lhe os ombros largos. Tanto insistiu que conseguiu cansar os outros oficiais e escondeu o dente brilhante na linha seca dos lábios, obrigado a deixar partir o casal sem mais custos ou demoras.
Telmei e Filipenka seguem com rota marcada para Rostov para aí tomar o barco para a Turquia.
Passam as florestas de árvores finas e brancas.
Procuram quarto nos hotéis de estrada. Albergues sujos, com mau cheiro, camaratas partilhadas, sem casa de banho ou janela, quartos de chão plastificado, camas sem lençóis.
Oito graus negativos, passam a noite no jipe. Não visitam Samara, Saratov ou Volvogrado. A 300 quilómetros de Rostov, quando pela centésima vez telefonam para a Embaixada portuguesa na Rússia a pedir informações sobre o ferry que os levará à Turquia, depois de muita insistência nos pormenores percebem que não, não é em Rostov que podem tomar o ferry, mas em Sochi...
O jipe abranda em desalentado passo, encosta na berma da estrada, olham o visto de trânsito prestes a expirar «Mais 400 quilómetros de desvio para Sochi?», avançam em silêncio.
Numa curva da estrada, entre barracas de lata encontram um gaztinitza (hotel), entram. Seguem a loira pela escada em caracol. Um grupo de pessoas embriagadas corre a fazer festas a Ra, o cãozinho reage, desconfiado e nervoso. No quarto batem à porta, uma das russas traz para Ra uma mão cheia de cubos de açucar (eventualmente confundindo-o com um cavalo). Quer entrar, precisa de estar agarrada às paredes para não cair no chão, o que ainda assim acontece algumas vezes. Filipenka tenta educadamente mantê-la do lado de fora. Minutos mais tarde a mesma mulher volta, despida, enrolada numa toalha turca. Vem acompanhada por um homem mais velho, gordo, em camisola interior de alças, boxers e ligas de meias até ao joelho. O par é grotesco e a situação constrangedora. Janocas consegue com sucesso fechar a porta, à chave. Na manhã seguinte o casal ressacado serve-lhes o pequeno almoço de kefir e blinnys.
Seguem viagem, param para jantar numa banca de estrada, em linha com as barracas de chapa metálica. Entram na sala de paredes azuis, aquecida por feios tubos de gás. Filipenka tenta pedir algo para comerem mas fazem cara feia às palavras que ensaia na língua eslava. Desesperam. É o dono do local, de olhos e cabelos escuros, emigrado da Geórgia, que lhes dá as boas vindas, convida a sentar, lhes grelha deliciosa carne de vaca e serve cerveja e Nescafé.
Seguem viagem, estado de ânimo sombrio, como sempre acontecia com eles na Rússia.

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