Acendo uma vela e queimo incenso, escrevo. Enceno o momento mas a verdade é que sempre escrevi. Sem saber bem porquê ou para quê.
Na viagem escrevo em todo o lado, perante uma paisagem deslumbrante ou na casa de banho, sentada na areia ou no chão da mesquita.
Viajamos de jipe, aqui na zona de Mtwara. Passamos as cabanas de lama, os longos coqueirais, as bananeiras de verde quase eléctrico. As mangueiras estão carregadas, os cajueiros sem fruto. Abrandamos para vencer os buracos do caminho, as crianças vêm a correr, gritam:
- Mzungu! Mzungo!. Chamam-me branca. Brincam, cabrilolam, riem, apontam-me o dedo. Seguem o jipe a correr, depois desistem, ficam a observar, no meio do caminho de terra vermelha.
O tempo passou. Quanto tempo passou desde que colhia figos nas figueiras do senhor Manel, desde que esfolava os joelhos na brita, desde que fugia da escola nos intervalos da manhã, desde que brincava aos namoros na areia do parque, desde que trocava papelinhos da “melhor amiga” desde que…? Não sei, em viagem parece que o tempo fica distorcido…
Passamos as aldeias, as cabanas, as escolas:
- O que são estas construções de cimento abandonadas?
- Como assim abandonadas? São escolas.
Estou de visita numa delas, acompanho os voluntários britânicos. Eles falam com o director, eu sento-me debaixo de uma árvore, tiro da bolsa um caderno e começo a escrever. E parece que comecei uma aula, as crianças correm para mim e amontoam-se para ver o que estou a fazer. Algumas tiram das pastas os seus cadernos, e mostram-mos com orgulho. Eu recebo-os. Os caderninhos estão estimados e limpos, alguns têm na capa o rosto do presidente. Uma das meninas pequeninas põe em cima de todos os outros o seu caderno, impecável. Está cheio de exercícios feitos em letra redonda e desenhada, está corrigido com caneta vermelha e todas as páginas estão aprovadas, excepto uma, eu levanto a cabeça do caderno:
– Ai, aqui fizeste um erro! – Digo assim mesmo, em português, ela baixa a cabeça, envergonhada, depois olha na minha mão o meu próprio caderno. Olha para uma página, roda a cabeça ligeiramente à esquerda e à direita, olha-me nos olhos um momento, e no rosto começa a nascer-lhe um sorriso, desata a rir, e afastando os colegas sai a fazer pinotes. Algumas ficaram por detrás de mim, e por cima do meu ombro tentam ver. Eu olho o meu caderno à procura da anedota e… e envergonho-me… da minha caligrafia, ilegível. Envergonho-me das tantas vezes que eu mesma rodo a cabeça, aproximo e afasto as páginas dos olhos, giro o caderno para cima e para baixo, intrigada com a mensagem que eu - eu mesma! - escrevi ali. Todas as crianças acompanham a menina, em risos e pinos. E outras mais aproximam-se e riem. Mas se nem falaram entre elas, riem de quê? Bem sei que nesta fase, e no recreio, tudo é contagioso, mas desconfio…
Quanto tempo passou desde aquele dia na escola em que decidi desafiar o meu grupo de amigos, que era o mesmo desde os meus quatro anos de idade?
Quanto tempo passou desde que escolhi para companhia as minorias, e para amigos os elementos mais problemáticos da escola? As órfãs, os negros, as ciganas, as repetentes, as mais velhas, as que cheiravam mal, os que faltavam às aulas, as que fumavam cigarros às escondidas e roubavam chocolates nos supermercados, as que pediam beijos aos rapazes e dobravam na cintura as saias para as subir acima dos joelhos, os que mentiam, as que batiam. Era com esses que eu me dava melhor.
O meu grupo não aceitou, fui excluída. Mas não desisti, e durante algum tempo, não sei se um mês, uma estação, um trimestre – o passar do tempo é misterioso para mim – defendi as emigrantes, os que eram castigados, os que vestiam sempre a mesma roupa, as adoptadas, as feias, as más. E acompanhava-os nas suas lutas, do almoço roubado, dos castigos da professora que usava a cana, das caneladas nos jogos de futebol, dos vexames nos recreios, dos pais que bebiam, das mães que batiam.
E corria os riscos dos castigos porque as acompanhava até casa para contar das reguadas e ia até ao orfanato para relatar as injustiças. Tudo para provar da minha liberdade, da minha dedicação à causa. E lá em casa falava mesmo com a mãe, com o pai, e no orfanato cumprimentava a directora obesa e má subia mesmo até ao refeitório e provava mesmo a sopa de gordura e água. E nos minimercados também punha no bolso os doces e quando era apanhada olhava de soslaio e se as amigas já tinham fugido – o que acontecia quase invariavelmente – eu olhava o dono com um olhar que dizia “não é para mim, é que eu tenho de me integrar neste grupo, percebe? Não é por mim, é… luta pelas minorias…” mas o dono não acreditava, e a minha mãe também não. E ficava de castigo, mas não desistia, nas aulas passava de carteira em carteira as revistas obscenas, nos intervalos guardava a porta da casa de banho para os disparates das novas amigas.
Porquê? Não sei. Já passou muito tempo, mas não sei… Por teimosia, por rebeldia, por obstinação, por entusiasmo desenfreado, por paixão.
As razões… os porquês… como é que acontece esse momento de clareza ou obscuro impulso, que nos faz escolher, decidir. Não sei. E quase invariavelmente quando decido não se ouve o agradável aplauso de um quórum mas antes a hesitação de um grupo, seguida de um bichanar colectivo, mais tarde interrompido por um “mas”, um “vejamos” ou uma pergunta difícil…
É comum ouvir esta pergunta: porque fiz esta viagem? E só tenho uma resposta: por paixão.
Quanto tempo passou desde que sei que este é o meu caminho eu não sei. Mas quando é necessário para os outros que eu justifique as decisões da minha vida esta é a minha irracional razão, e lamenta a minha mãe: “Mas filha, tu dizes sempre isso!” mas é a verdade, sigo as paixões.
Escrevo, o Ra descansa a meus pés, descansa apenas do cansaço que nos dá o calor e a humidade do ar, Telmo abre a porta:
- Filipa?
- Sim paixão? – ele sorri.
- São cinco horas, vamos tomar chá? – e mesmo sem saber quando nos tornámos tão britânicos, sigo-o.

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