Goreme, Turquia.
10 horas.
- Estaciona aí, espera, acho que não se pode... desculpe, aqui não se pode?
- Posso?
- Não sei, não percebo o que ele diz...
- Vê aí no guia as frases fáceis.
- Em Turco não há disso, olha aqui, é impossível de dizer. Mas tento, evet? hayir? (sim, não) ele diz belki, espera lá, ora belki é... é “talvez”. Acho que está a gozar comigo.
- Deixa, levamos o Ra?
- Aqui? Mas é um museu.
- É ao ar livre, não perguntes, levamos.
Na bilheteira estranham mas aproveitam, Ra paga meio bilhete
- Bem, é fantástico.
- É incrível não é?
- Mas construíam assim porquê?
- Porque era mais fácil escavar na pedra mole do que andar a carregar. Depois vais ver em Istambul...
- Mas achas mesmo que devemos ir – Ra não faças aí, isso são frescos! – achas que devemos ir já para Istambul?
- Sim, porquê?
- Não sei, ainda não sabemos se podemos mandar de lá o jipe.
- Mas temos este contacto da Vainoglio Shipping.
- Sim, na China também tínhamos contactos e foi o que foi. E na Rússia também havia barco em Rostov e depois...
- OK, não temos a certeza mas em princípio...
- Mas eu agora queria ter a certeza porque se vamos a Istambul e não há transitário? – olha aquela, isto viver aqui dentro devia ser difícil – não sei, tenho receio que cheguemos lá e nada, mais quilómetros e depois...
- Se de lá não der vamos para a Grécia, também temos aquele contacto da Teresa, de Pátras – as igrejas é por aqui, queres ver ou já não te apetece?
- Sim, vamos. Mas teríamos de ir para a Grécia de novo e ela não deu datas. E afinal vamos para Moçambique ou para o Vietname?
- Então não decidimos que o Vietname fica para depois?
- Sim, mas estamos sempre a mudar de planos.
- Que fazemos então?
- Sei lá, a mim apetece-me passear por aqui, não podemos fazer isto para sempre? Estou a brincar. Tenho fome. OK, vamos tentar... mas os ferrys são sempre difíceis e nós vamos dentro do jipe, num transitário vai lá o jipe sozinho... há histórias de malta que perde tudo assim, afunda-se o teu contentor, só o teu, percebes? Ou não deixam desalfandegar... não te lembras que o meu irmão falou nisso?
- Porque estás tão pessimista? Não és tu que dizes que “há trolls nas palavras”?
- Sim... mas repete lá para eu me convencer, se o jipe for no contentor do transitário nós vamos...?
- De avião, com o Ra - já me deste um beijo hoje?
- Ó pá, não faças isso, eles aqui olham muito, amor!beijam-se Vamos almoçar? tenho fome!
Esplanada.
13 horas.
- O que é que te apetece?
- Não sei, aqueles hummus e assim...
- Há kebabs de carneiro.
- Pode ser. E um pastel daqueles doces muito perfumados.
- E peço isso como ao empregado?
- É... como é que se chama? Tavukgogsu, pede lá para eu ver. Telefonas para a D. Teresa? – ei, este gato saltou para o meu prato! Bicho, bichano, sai lá daqui.
Telefonema transitário grego
- Eu para Moçambique não sei... nós fazemos é muitos transportes para o Cairo... para o Cairo não lhe dava?
- Cairo?... mas como descia depois para Moçambique? Porque por terra não dá, eh, eh -riso nervoso - como poderia ser?
- Só se fosse depois de barco de Alexandria para Maputo, deve haver, não é? De qualquer modo demora, o nosso vai a Amesterdão, compreende? são as rotas que usamos... são sempre 30 dias. Mas porque não veio de avião? Isso de vir assim por terra é um bocado complicado...
- Filipa, diz que são 30 dias.
- Ai! Como vamos ficar esse tempo à espera do jipe com o Ra?
Telefonema D. Teresina, Embaixada portuguesa em Ancara
- Andam a viajar como? Não percebi? De carro?
Pois... estou a ver... mas sabe quem se calhar pode ajudar? o nosso Embaixador no Cairo é muito simpático, telefone, pode ser, não é?
Telefonema Embaixada no Cairo
- A viajar por terra? De Portugal à China? E da China à Turquia? Caramba.
Bom, daqui... como poderia ser? Mas, desculpe lá, mas como é que faria daí donde está para chegar ao Egipto com o jipe? E, desculpe, mas estão a pensar atravessar África por terra? Isso era uma viagem fantástica.
- Quer dizer – Filipa, ele fala em atravessarmos África por terra - Nós gostávamos mas... Bom, estamos aqui a ver barcos, mas demoram muito e não é viajar por terra.
- Pois, isso é pena, mas para seguirem até aqui... Síria e Jordânia, talvez... não sei. Há a questão de Israel...
- Mas nós não temos vistos nenhuns, como não planeámos vir por aqui...
- Então mas se aí na Embaixada vos ajudassem a chegar aqui de algum modo, eu ajudo a partir daqui.
- Mas descíamos como? Quero dizer, há o problema do Sudão.
- Sim, de facto o Sudão é muito complicado... era de evitar, mas deixe-me aqui falar porque tenho muito boas relações com o Ministro Plenipotenciário no Cairo e pode desenhar-se uma rota... sei lá, sei que há um ferry para Port Sudan, não sei, estou a pensar. Falem com a Embaixada aí, eu vou ver.
- O que achas?
- Bom, eu nem imagino, atravessar toda a África por terra?
- Sim. Apetece-te mais que mandar de barco?
- Qual barco, eu já nem penso no barco!
- Mas era mais sensato e seguro, não?
- Sensato e seguro era ter ficado em casa.
- Mas e o Sudão? Nós não podemos atravessar o Sudão!
- Deixa ver, ele disse que talvez haja essas hipóteses de ferrys... Ele ficou entusiasmado não foi? Eu também fiquei!
- Eu também...
Novo telefonema para o Cairo
- Estive a ver, há a hipótese de tomar um ferry de Alexandria para a Arábia Saudita, de lá para Port Sudan, de lá para a Etiópia, porque o Sul do Sudão é que não pode mesmo ser passado. Eu achava muito interessante passarem a Etiópia, numa viagem assim, no fundo é a nossa História, é a rota de Pêro da Covilhã. Mas o que é que sentem em ir viajar num país em guerra?
Se conseguirem vir andando quando estiverem na Jordânia telefonem.
- Agora só falta arranjarmos os vistos.
- Só, dizes tu.
- É melhor avisar o MNE?
- De que queremos atravessar África? Eu até tenho vergonha.
- Bom, vamos para Ancara?
- Vamos!
Ainda hoje Luíz de Albuquerque Veloso, do MNE, nos diz
«Não poderei nunca esquecer o vosso telefonema quando estavam na Turquia a participarem-me que "já que ali estavam", iam primeiro a Moçambique (por terra) e logo iam ao Vietname!!!»

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