Monday, March 23, 2015

Chien ~ a humildade


Nas ruas de Korgas cheira a legumes podres e excrementos de galinha. Um pequeno fosso entre a estrada e o passeio é contentor para todo o tipo de lixo. Estamos aqui.


O hexagrama:

Acima K’un. O receptivo, a Terra

Abaixo K^en. O imóvel, a Montanha

O julgamento: Aquele que estiver em posição inferior será ajudado, aquele que estiver em posição superior terá sucesso se for humilde.

A imagem: Na terra a montanha, a humildade.

O homem superior subtrai o que é demasiado, aumenta o que é pouco. Ele pesa as coisas e fá-las iguais.»


Sim, mas nós empreendemos a viagem por terra, sozinhos, de Portugal à China, seremos humildes, modestos?

Falhei, não segui o conselho da sabedoria ancestral, ficámos quase um mês aqui, retidos na vila de fronteira da China, a aprender.

Quando era pequena brincava a adivinhações e oráculos. Fazia moedas mágicas, Runas, baralhos místicos e dados enfeitiçados. Nas buscas de esoterismo encontrei o I CHING, o Livro das Mudanças, o Livro Sagrado do Oriente, o clássico chinês escrito pelo lendário imperador Fu Hsi, o manual de adivinhação reescrito por Confúcio.

Mas na moderna China não encontrei sabedoria ancestral, manhãs de Thai Chi, bálsamos de ginsengou imagens Buda feliz. Na China actual todas as cidades ambicionam ser Nova York, e até em Korgas, perdida entre os Altai, há prédios, néons,internet cafes, multibanco, e chocolates Dove. No nosso confortável hotel há um Starbucks Coffee, decorado de pontes, jardins de bambú e flores artificiais, com o slogan «No Lanzhou hotel prove todo o exotismo de um verdadeiro café à italiana».

Na China não joguei as moedinhas mágicas, mas os hexagramas, as alegorias, os julgamentos e codificadas linhas formadas pelo lançar da minha fortuna acompanham-me. Vejo as imagens: o céu, a montanha, o lago.

As alterações do céu reflectem-se no lago artificial do jardim do hotel, da nossa rua vemos o brilho das neves eternas nas montanhas Altai, da janela do nosso quarto as tempestades e dos jardins sujos o pôr-do-sol.

A natureza envia mensagens, imperscrutáveis.

No hotel, chinesas de pele macia de seda e branca de porcelana massajam-me o corpo em movimentos bruscos e desritmados, caminham sobre as minhas costas em perícias Thai, trabalham cada músculo com os seus dedos leitosos. Os saltos altos, a maquilhagem, os sorrisos, denunciam e anunciam outros serviços, pago os dólares da tabela. Na China o que é proibido não existe.

«Nove na posição cinco: Dragão voador nos céus.

Mais longe, para o homem ilustre.»

Para nós o “homem ilustre” é a Cônsul, a funcionária da nossa embaixada em Pequim, o nosso Secretário Geral do MNE.

Viajar por terra, sozinho, e ter problemas para resolver não é a melhor apresentação ao corpo diplomático, mas entre as sonoras gargalhadas de Luiz de Albuquerque Veloso, o CD faz milagres de diplomacia em terras codificadas, e conseguir que aceitem o nosso jipe à guarda da alfândega chinesa e a presença do nosso cão no país são sinais auspiciosos como dragões voadores. Sabemos disso e agradecemos os esforços.

Mas o nosso caminho não é por aqui.

Vendo de perto os placares espalhados pela cidade não é necessário saber Chinês para perceber o aviso, está ilustrada como uma BD a pena - execução pública: no primeiro quadradinho o estádio, no segundo a bancada a encher de pessoas, no terceiro os condenados a tomar os seus lugares, e depois os carrascos, seguindo-se o espectáculo final, a bala na nuca.

Teimamos ainda «atravessámos já tantos países,não são os chineses que nos vão derrotar!». A falta de modéstia continua.

Sentados no restaurante do hotel, entre cabeças inteiras de animais, massas de arroz e saladas frias picantes, já experimentámos, por falta de pontaria no menú, quase todo o tipo de pratos uigures. Aqui tudo é surpresa, só se escreve em Chinês e é impossível comunicar noutra língua.

Na culinária uigur todos os pratos têm simbolismo: ao servir a cabeça de ovelha a orelha deve ser cortada e dada à pessoa mais nova à mesa, para que oiça os mais velhos; o pedaço perto do olho à pessoa importante para nós, que fique atenta; uma parte da testa a quem tiver um desafio pela frente, para que seja inteligente na resposta...

Mas de certo que em Mandarim não existe a palavra “negociar”...

Ao som da música que canta «Chié-chié Mao»(obrigado Mao), olhamos no poster da parede, daqueles em que a água até mexe, a paisagem exótica de uma praia de areia branca, mar turquesa e sombras de coqueiros... e neste mesmo momento, com um brinde de aguardente de lagarto baijiu, decidimos seguir para Sul! Moçambique, aqui vamos nós! Foi a Estrada que decidiu, não sabemos ainda como, mas vamos!

No nosso 67º dia de viagem engolimos o orgulho,acendemos os insensos a Buda e fazemos as nossas preces, preparamo-nos para Fu - O Retorno,voltamos para o Cazaquistão. Repetimos o desfile de chegada; carregados, de Ra à trela, fazemos a pé os três quilómetros até à fronteira.

Na alfândega mais uma vez descarregamos e carregamos toda a nossa carga, são verificados documentos e finalmente têm oportunidade de admirar o passaporte do Ra, que faz sucesso. Pagamos dois euros e meio por dia, de estacionamento do jipe! e ainda solenemente declaram que é este preço porque gostam de Portugal... para outros é oito euros. Quais outros? Que outros veículos estão à guarda deste fronteira?

A alfândega fecha para almoço, aguardamos. «A lei aqui é muito rígida» mas durante o intervalo de almoço as filas de cazaques e chinesas, carregadas de infinitos caixotes com todo o tipo de mercadorias, aproveitam a alfândega deserta de oficiais. Vemos caixas de papelão a deslizar pelo chão branco, caixotes com pés, sacos de duas cabeças, mandados parar por oficias zangados, de volta ao trabalho depois de uma tigela de arroz chau-chau.

«Há três meios de ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.» Confúcio


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