Acompanhando o delta do Danúbio chegamos à Ucrânia no nosso 33º dia de viagem, seis mil e seis quilómetros depois de Lisboa. Nesta fronteira espera-nos um enorme portão, e em vez de um corredor de guichets como encontrámos até agora, onde a burocracia se resume a esticar o passaporte, há um complexo de vários blocos de edifícios, e a ameaça de várias fases de carimbos e papeladas.
No portão uma oficial em fato camuflado, cabelo pintado de vermelho e enormes unhas rosa. Acho que sou cumprimentada, em Ucraniano, ensaio a resposta em Inglês. Logo que percebe que não falo a sua língua suspira, estende-me dois cartões amarelos e aponta para o meu passaporte. Entendo que é para preencher, claro, mas não percebo uma palavra, preencher o quê? onde? A oficial não quer saber. Às minhas perguntas insistentes vai dizendo «da svidaniya!» (até à vista). Nós precisamos de ajuda«A fronteira não é fechada a estrangeiros pois não!?» Mesmo que soubesse usar este argumento em Ucraniano a resposta poderia muito bem ser«agora é!»
No controlo de passaportes a oficial tem conjugado com a farda uma mini-saia curtíssima e botas de saltos vertiginosos. É impossível perceber o procedimento para passar esta fronteira, mas ela simpatiza com o Telmo, o que não é necessariamente bom, e leva-o em assédios vários ao oficial, que depois de pedir alguns euros pela “ajuda”, nos arruma de uma só penada com os carimbos para passaporte, jipe e cão. Estamos despachados.
Seguimos para Hmelnyckyj.
Na enorme Ucrânia a estrada acompanha os campos cultivados. Campos planos, amarelo palha, como os cabelos das mulheres.
Nas intermináveis rectas a velocidade cruzeiro é uma tentação, mas os limites de velocidade são baixos e o policiamento das estradas cerrado, os carros da milícia escondem-se entre árvores, em desníveis dos campos. Vamos a 100 km/h e somos mandados parar pelo tipo de radar de mão que nos diz que o limite de velocidade é 95.
O polícia é redondo e branco, ponta do nariz vermelha, farda apertada e boné espetado no topo da cabeça loira. Parece um polícia de desenho animado, um desenho animado mal disposto.
Telmo pede-me que aguarde dentro do carro, não tenho nenhuma vontade de fazer o contrário. Oiço-os em pouco Inglês e muito Ucraniano, pedem dinheiro e.ameaçam com apreensão do passaporte. A certa altura o polícia abeira-se do jipe e olha-me nos olhos. Diz que sou russa. Mostramos o comprovativo de que sou portuguesa. Ele insiste que é falso, eu sou russa, ele não é parvo! Grita comigo em Ucraniano, não percebo uma palavra o que mostra bem que ele está enganado, eu não sou russa e ele é parvo. Parvo e mal educado!
Pede 100 dólares pelos nossos cinco km/ h de excesso de velocidade. Telmo finge não perceber nada e telefona para a nossa embaixada em Kiev. Ao telefone, a cara do polícia vai ficando cada vez mais vermelha, não sei se de raiva ou vergonha. Seguimos viagem sem pagar um só hryvnia!
Na cidade de Odessa, grande e cinzenta, procuramos sítio para dormir, mas “hotel” não é uma palavra universal... Aprendemos logo que saímos da nossa rua que nada é universal.
Recepcionista muito loira atrás do balcão, nem uma palavra de Inglês, e eu nem uma palavra de Ucraniano, pensará ela. Alugamos o melhor quarto, a lyux, com a condição que aceitem o nosso cão. Venha o luxo! Claro que o conceito, como tudo, é relativo... Dedicamo-nos aos celebrados prazeres eslavos, depois de uma reconfortante sauna, vamos jantar, é preciso descodificar o menu mas em terras com mares de esturjão rapidamente aprendemos a palavra ikra (caviar) e deliciamo-nos com comida da czares a quatro euros!
Toda a estrada da Ucrânia está pontilhada de cores. As cores vibrantes das coroas de flores de plástico que assinalam atropelamentos.
Paramos para comer, tentando adivinhar uma casa de pasto entre as muitas pequenas khata, casas feitas de madeira, pedra e barro, com portões e muros azuis e rosa, que se alinham à beira da estrada. Lá dentro as paredes são pintadas de ocres e vermelhos fortes, com enormes flores e animais, nas janelas há cortinados de folhos, em cetim azul e nas mesas toalhas verdes, com bordados. Na prateleira de madeira envernizada, atrás do balcão, estão dispostos pêssanka, ovos pintados à mão que na Ucrânia tradicional simbolizam a vida, a saúde, a prosperidade, esquecidos da última Páscoa, talvez. A empregada ruça vem tentar perguntar o que queremos, nós tentamos responder mas «ikra? Niet»a comunicação não é fácil. Faço gestos, ela ri-se, de dentro das golas de pêlo,
«Borsch?»
Seja. Recebo uma tigela com a sopa vermelha de beterraba, com carne, gordura e batatas...
«Ivan Iákovlevitch vestiu, por respeito das conveniências, a casaca por cima da camisa e, sentando-se à mesa, serviu-se de sal, preparou duas cebolas, pegou na faca e, com uma expressão eloquente na cara, pôs-se a cortar o pão. Ao abri-lo ao meio, olhou para o miolo e, surpresa sua, viu algo esbranquiçado. Escavou cuidadosamente com a faca e apalpou com um dedo. "É duro - disse para si. - Que poderá ser?". Enfiou os dedos e tirou - um nariz!...Caiu das nuvens; esfregou os olhos e começou a apalpar: nariz, nariz de certeza! Ainda por cima de alguém conhecido, parecia-lhe. Desenhou-se o terror no rosto de Ivan Iákovlevitch.»(Nikolai Gogol)
Procuramos hotel em Marioupol. Na noite anterior dormimos num motel de estrada, medonho; escuro, sujo, “lixo usado” debaixo da cama, água fria, lençóis que já foram usados...
Na zona rica, em frente ao mar, Telmo começa a busca. O primeiro está cheio. O segundo também. Dizem-nos o mesmo nos dois seguintes. Aí desconfiamos de que alguma coisa está mal. Olho para a nossa roupa, já viu melhores dias. Saquei dos sapatos de salto alto e soltei os cabelos. A senhora loiríssima na recepção usa por cima do decote sexy um fato em tecido tigresa. Arranhei:
«Dobry den’. Prastite, nommer?»
«Da.»
Sim. Pedi um quarto duplo. Fiz o check in e fui buscar o Ra e o Telmo. À sua passagem a recepcionista corou.
Amanhã seguimos para a fronteira: Ukrayina, da svidaniya!

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