Na Ásia Central vive um monstro.
Enorme. Côr de máquina abandonada à chuva. De pele escamosa, esburacada. Pêlos ruços, eriçados, cobrem todo o seu corpo. Tem sangue espesso, oleoso. Dos seus poros saem chamas, gazes e cheiros mortais.
O seu corpo é ossudo, seco, duro. Os ossos expostos em mil fracturas. Ossos que não compõem um esqueleto. As suas veias estão puxadas à superfície, como tubos quentes. O monstro tem os olhos vazados, os tímpanos furados, as cordas vocais cortadas. Da sua baba formam-se lagos, mares. Mortos, infectos, radioactivos.
O monstro está adormecido. Sofre de febres, temperaturas positivas e negativas em suores e alucinações.
Visitamos o monstro.
Percorremos a sua coluna de rectas mortais, subimos e descemos cada vértebra sinuosa. Como um parasita.
Na Ásia Central vive um monstro chamado Cazaquistão. Pertence à extinta espécie soviética. Votado ao abandono, afastou-se como um pária e perdeu-se, cego de doenças e sonhos de independência.
Nós não sabíamos.
Para nós o Cazaquistão era apenas um enorme “istão”, daqueles que no mapa vizinham a ainda maior “mãe” Rússia. Kirguistão, Turqmenistão, Uzbequistão...
Para o nosso “Oráculo”, Olena, a funcionária russa da agência de viagens em Lisboa, é uma enorme aldeia.
Para outros é só um país riquíssimo, no seu subsolo, ao que parece sem qualquer exagero, é possível encontrar todos os elementos que compõem a tabela periódica do químico russo Dmitri Ivanovitch Mendeleev.
Outros consideram-no uma piada digna de filme de Hollywood.
A Rússia é o maior país do mundo. Nada ao pé desta mancha parece grande. Mas os seus filhos desenham-se, longos, presentes, a seu lado.
No Google Earth o Cazaquistão é apenas uma mancha branca. Na realidade é um buraco negro.
Não sabia quase nada sobre este país. Não sabia.
Na nossa ignorância escolhemos atravessar o Cazaquistão uma vez, para alcançarmos a China, evitando as máfias do Extremo Oriente russo.
Mas para nosso desespero, o destino de viajantes obrigou-nos a atravessá-lo de novo, da China para a Rússia, em busca do mar Negro que banha a Turquia.
Não sabíamos que só sob maldição se visita este monstro. E que só no mesmo estado, surdo, cego e mudo, se pode sair dele incólume.
Consultando o diário de bordo, entrámos na estepe cazaque no dia 11 de Outubro de 2006 e chegámos à fronteira chinesa oito dias depois. Voltámos a atravessar o país entre 6 e 11 de Novembro. Os factos estão assim registados, mas não foi assim.
Na verdade, perdemos a noção de tempo e de espaço mal entramos no Cazaquistão. A estepe interminável transporta-nos para uma dimensão irreal onde os dias não passam e as distâncias não se vencem.
Passada a fronteira anoitece. A lua ilumina timidamente a estrada que tomamos, ou melhor, que tentamos tomar.
Estradas. Quem viaja por terra precisa de estradas. Penso que não haverá país com melhores condições para estradas. Plano e rico em petróleo. Mas que sei eu de engenharia e política?
A estrada é alcatroada. Ou melhor será dizer que foialcatroada. É um longo e recto tapete de buracos, tão grandes que parecem ter sido feitos com pá e picareta, o jipe inteiro caberia neles.
Não se vê uma placa de sinalização.
Esta estrada destruída impede-nos de avançar. Aos dias sucedem-se as noites e só a lua ilumina o nosso desnorte. Sem cama, sem comida, perdidos.
Seguimos sem dormir, olhos forçados tentam ler a estepe e o complicado mapa. Nada senão enormes rectas que parecem não ir dar a lado nenhum. Enganamo-nos no caminho. Ou é o monstro que se rebola no sono e realinha os ossos que percorremos?
Avançamos lentamente, muito lentamente. Não parece que atravessamos um país. Não tem marcas de país. A sensação de mundo a perder de vista, a visão da descomunal paisagem plana, seca, estéril é impressionante.
Sinto que passámos anos perdidos nesta estepe. Que na estepe perdi a fala, ganhei os medos. Os saltos altos e as roupas femininas fecharam-se nas malas perfumadas. Transformo-me como uma Górgona enfeitiçada. Escondo a pele seca e as serpentes dos cabelos em turbantes empoeirados.
O pó seca os sorrisos e fixa o olhar rasgado de espanto, de prostração, de medo.
Silêncio, desolação.
Há muitos quilómetros que observamos automóveis queimados na berma da estrada. Velhos Lada são aqui deixados como altares em homenagem aos seus ocupantes perecidos no desigual combate com as armadilhas da estrada. São túmulos na estepe que transformam a nossa viagem num triste cortejo fúnebre.
Dizem-nos que neste país não há doenças como o cancro ou a sida, porque os médicos estão proibidos de as diagnosticar. Que não há jornalismo porque a informação é controladíssima pelo governo. Que há famílias, aldeias inteiras refugiadas não sei de que guerras a viver em vagões de comboios abandonados algures na estepe estéril. Que há fome, aldeias onde os pescadores de esturjão são obrigados a roubar peixe para alimentar as famílias. Que a riqueza de petróleo é tal que não é necessário perfurar poços, a terra transpira-o e os seus vapores provocam extensas áreas de mil fogueiras de pura combustão. Que há febres e pestes que não existem na Europa desde a época medieval. Que numa ilha do Mar Cáspio se queimam corpos para impedir o contágio de não se sabe que epidemias. Que o despovoado Mar Cáspio morre. Que há minas de urânio a céu aberto e campos de lixo nuclear abandonados onde há o suficiente para fabricar dezenas de bombas...
Terra dos cazaques. O significado da palavracazaque é incerto, independente/ rebelde/ errante/ bravo/ livre. Irónico, não é?
Cazaquistão é um país monstruoso. De tamanho, de desolação, de abandono.
Estepe a perder de vista. Ao longe brilha a chama dos poços de petróleo.

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