Monday, March 23, 2015

Habari za mchana



Quando eu era pequena o meu avô materno era a meus olhos um sábio.

Sabia pouco das letras e dos números que me ensinavam na escola. Olhava intrigado os meus livros quando o visitava para ajudar na apanha das batatas, na matança do porco, nas vindimas. Desconfiava dos médicos, dos carros, dos edredons, dos fogões a gás.

Mas a sabedoria dele era para mim cheia de poesia.

Adivinhava o tempo nas manchas do céu ou a ler as fagulhas de fogo presas na fuligem da lareira. Sabia das ervas e dos chás medicinais. Falava com os bichos. Lia as luas. Cultivava a magia da terra. Dominava o fogo, nos rituais das fogueiras. Gostava de dormir na eira de pedra, ao relento.

O meu avô era um poço de vocábulos e máximas para mim enigmáticas. E se passava por ele na aldeia onde vivíamos ele perguntava

- Netinha, o que é que elas dizem?

- ... ?

Respondiam os meus olhos redondos, a minha cabeça baixa e envergonhada, pensava

- Elas, elas quem?

Não percebia, não sabia o que dizer.

As mãos ásperas do meu avô agarram as minhas, e sinto que é um teste. Sem encontrar a resposta certa não poderei seguir o caminho para casa. Olho-o no misto de admiração, respeito, carinho e medo que só nos olhos dos netos se pode encontrar. Os olhos do meu avô, o olho azul e o castanho, estão fixos em mim. Espera, num meio sorriso, divertido com a minha ignorância.

 

Na Tanzânia, em safari pelo Norte do país, safari em Swahili quer dizer viagem, precisamos de indicações.

Aqui não há estradas nem placas. Viaja-se de aldeia em aldeia ao sabor das direcções dos locais.

Pedimos ao tanzanino a quem damos boleia que esclareça o caminho na língua nativa.

Mohamed sai do jipe e dirige-se a um grupo de homens, deitados à sombra de uma enorme mangueira. Toda a aldeia vem ver. As mulheres enroladas em panos coloridos vêem oferecer cajus e pequenas bananas, as crianças exibem bandejas sujas, com camarões e lagostas vermelhas, brilhantes. Tentam chamar a nossa atenção wewe, mzungu, mzungo! (ó tu, branco, branco!).

 Mohamed é pequeno e magro, parece uma criança, mas todos o cumprimentam com deferência. A hierarquia social em África é muito marcada, e só o facto de viajar na companhia de mzungos dá-lhe direito a tratamento especial.

Todos o cumprimentam, Shikamo babu, o cumprimento tradicional de respeito, por uma pessoa mais velha, por uma pessoa mais importante. Para este tratamento só há uma resposta possível Marhaba de uso ritual, de tradução impossível.

 

Grupos de pessoas encostam-se ao jipe, observam-nos como a animais numa pequena jaula de chapa. Mohamed senta-se entre o grupo, conversam. A conversa é longa. Há muitos Ehhh!Heh! e Al-lah!, expressões de espanto e surpresa. Conversam, olham-nos, voltam a conversar, gesticulando sempre.

No final Mohamed despede-se de cada um deles e volta para o jipe.

 

- Então, esquerda ou direita?

- Não sei bwana (senhor), eles não sabiam.

 

Seguimos caminho. Não dizemos nada, mas não compreendemos. Não sabiam? Então porque demorou tanto tempo?!

Mas a conversa não foi sobre o caminho. A conversa foi sobre a aldeia, a família, as colheitas, a chuva.

Sobre quem viaja com ele, quem somos nós, por que queremos seguir aquele caminho, onde vivemos, por que estamos aqui, de onde somos. E mais importante, por que não saímos para conversar?

E outras questões mais ou menos metafísicas que se de facto discutíssemos na beira da estrada de lama impediríamos o trânsito... que de facto aqui não existe...

Mas nós temos pressa, temos sempre pressa. Aqui só depois de cumprido o ritual se pode passar a outros temas de conversa e só aí se falou sobre a nossa pergunta, a direcção a seguir.

 

Dizem-nos entre esgares de gozo que «deus quando criou o homem branco deu-lhe um relógio, quando criou o homem preto deu-lhe tempo.»

 

Em África tudo demora. Nas longas esperas de fronteira, no mercado, no hotel, em todo o lado por aqui se percebe que a urgência é um conceito estrangeiro.

Haraka, haraka haina baraka, provérbio swahili que diz que a pressa trás má sorte.

 

Nada demora mais do que as cortesias africanas. Nada é mais importante.

O cumprimento dos povos da costa Oriental de África tem mil formas, mil conjugações.

E recusar ou resistir a isso é fazer atrasar qualquer relacionamento. O ritual tem de ser respeitado, caso contrário somos tomados por mal-educados, grosseiros, ignorantes, bárbaros.

 

Em terras swahili os rostos de narizes redondos, olhos negros e sorrisos rasgados que me cumprimentam na rua esperam a mesma coisa que esperava o meu avô.

Divertidos ao ver o mzungo, habitualmente tão esclarecido, atrapalhado com as palavras, esperam.

Aproximam-se, rodeiam-me, envolvem-me. Falam alto, gozam com o meu andar e o meu vestir. As crianças, às dezenas, agarram-me as mãos, beliscam-me os braços a saber se sou real, tocam-me os cabelos.

Kishwahili é uma língua tribal, Bantú, que foi mais tarde complicada com o Árabe, o Português, o Inglês.

Testam o meu desdomínio do Swahili, esperam a resposta certa.

Em trocas de complicadíssimos apertos de mão, que envolvem polegares espetados movimentos de braços e toques de ombro, esperam a minha resposta. E sinto nestas mãos escuras e ásperas as mãos do meu avô.

Sinto-me pequenina outra vez, e solto os tímidossalama cabiça? Mambo? Jambo? a tentar acertar.

 

Mas para mim a mais misteriosa forma é habari za.

Pode ser conjugada com hasubuhi, mchana, jioni, leo, kazi, wewe - manhã, tarde, noite, dia, trabalho, tu. Pode ser conjugada com quase tudo.

Não quer dizer nada, não pede propriamente informação ou resposta concreta, é uma espécie de que nos diz... ou que notícias de...

Uma espécie de o que é que elas dizem?

É suposto respondermos safi ou mzuri, boas. Mesmo que tenhamos más notícias para partilhar, diz a regra que devemos começar por dizer que está tudo bem.

 

Aprendo Swahili e descodifico memórias. Ao meu avô depois de um

Shikamo babu

responderia ao seu tão próprio o que é que elas dizem?

Boas, boas tardes.

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