Monday, March 23, 2015

Romênia vermelha


Se cada país tivesse uma cor; a Roménia seria vermelho vivo. O vermelho das grossas camisolas de lã que usam as crianças, escondidas entre as ervas, empoleiradas nas carroças. O vermelho dos portões das casas baixas e frágeis. o vermelho das mantas que cobrem as garupas dos cavalos. O vermelho do néon nas montras das casas mortuárias: ‘Aberto 24 horas’...

Este é o povo de Roma mais a Oriente no nosso mapa, ‘roms’ perdidos, resistentes, isolados entre eslavos.

Cabelos negros, olhos redondos, pele cigana.

O encanto dos povos nómadas para quem o hoje é importante, o ontem já não existe e o amanhã só o vento conhece.

Movem-se como o sol e a lua. São como as ondas. Estão em toda a parte. Chegam e partem. Desaparecem deixando os traços da sua passagem no eco da música, no relinchar dos cavalos, no riso das mulheres. Não, não são feitos de vento. São os filhos do vento.

Avançamos na estrada lotada de carroças. Carroças dos povos perseguidos, dos que nos lêem o coração no olhar e a sina na palma da mão.

Carroças guiadas por mulheres de rosto marcado, lenços sujos nos cabelos, batas e aventais a vestir a sobreposição de roupa grossa e colorida.

Enquadrada pela janela do jipe, a imagem parece saída de um documentário, ‘Roménia profunda’, que nos vende a televisão.

Paramos na beira da estrada. Alinham-se as casas baixas. Homens bebem água dos poços de pedra. Cavalos pastam e crianças (tantas crianças!) brincam.

O pudor em fotografar pessoas faz-me falhar tanta coisa.

Passam pequenos carros carregadíssimos: móveis, pneus, gansos, tudo atado no tejadilho.

Entramos numa das casas de porta de madeira aberta.

Lá dentro, nas mesas, uma jarra de flores de plástico e uma tigela com açúcar.

Duas raparigas conversam. Entramos e olhos pretos silenciam-se.

Temos fome – não há nada que eu possa apontar nas prateleiras vazias. Por dificuldade de comunicação pedimos Nescafé. Sentamo-nos com os nosso cafés quentes e lentos.

Elas voltam à conversa sussurrada, o sítio é sombrio, as expressões tristes, os olhares abandonados.

Olho-as. Lembro-me das conversas com as minhas amigas de adolescência no interior do nosso país. De quando sonhávamos com o mundo, daquele lugar que sentíamos ser para nós tão pequenino.

A entrada de Bucareste é um amontoado de lixo, obras, estradas fechadas, buracos, canos, passeios enlameados, linhas de eléctrico destruídas.

No centro da cidade, a sumptuosa ex-residência oficial de Ceausescu domina a paisagem.

A nossa presença provoca silêncios e olhares severos.

Seguimos viagem, país agreste dentro, até Bacau.

Passamos a magnífica zona montanhosa. Estrada sinuosa, castelos e palácios belíssimos, cemitérios cinematográficos, penhascos e montanhas pontiagudas, como dentes... Bancas de beira de estrada com alhos e cruzes... Para os turistas, espero!

Transilvânia.

Os vidros do jipe embaciam teimosamente, sinto falta de ar, aconchego o lenço no pescoço...

Vlad, o cavaleiro da Ordem do Dragão, o filho de Dracul, Vampiro, o imortal, nasceu aqui em 1431.

O castelo de Bran, da torre do qual a esposa de Vlad mergulhou na eternidade do rio Arges, está agora transformado em museu.

O corpo de Drácula foi decapitado pelos turcos, e a cabeça enviada para Istambul, onde o Sultão a expôs numa estaca como prova de que ‘O Príncipe Empalador’ estava morto. O corpo foi enterrado em Snagov, uma ilha-mosteiro perto de Bucareste.

Corpo separado da cabeça, como manda a lenda.

Olhamos a paisagem feita de gritos de morcegos.

Receamos as recriações demasiado turísticas, ou demasiado reais! Não paramos para visitar.

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