Monday, March 23, 2015

A maezinha Rússia é muito grande


Em Portugal sonhava em viajar na Rússia. Sonhava com as planícies e florestas dos filmes de Sokurov. As histórias de amor trágico de Mikalkov e Tarkovski. O erotismo de Pushkin. O sonho de Nina n’ A Gaivota, a propriedade d’ O Ginjal e o charme decadente de Tio Vânia.

Em Portugal interpretava Irina d’ As três Irmãs e sonhava com tardes frias ao calor do samovar, com serões de paciências, mimos da aia Anfisa e o cortejamento de militares. Sonhava com Moscovo, de olhos em alvo, em ingénuo efeito teatral.

 

No nosso 38º dia de viagem chegamos à muito temida fronteira da Rússia, em Kholodnaya.

Dizem-nos que um grupo de jornalistas portugueses ali demorou cinco horas para entrar. Nós demorámos dez, dez horas!

No controlo de passaportes, primeiro passo fronteiriço, o oficial de expressão fechada mantém os olhos baixos. Carimba vistos e anota em letra miudinha, sabe-se lá o quê, num dos inúmeros livros que forram as paredes. Entre dentes diz-nos que a Rússia ganhou a Portugal em futebol.

O veterinário de fronteira carimba três vezes o documento do Ra. O Ra tem chip, passaporte, licenças, análises clínicas, atestados... e um certificado internacional que diz em letras gordas «Para a Federação Russa». Pois diz, mas eu entreguei esse mais tarde, no Sudão, aqui dei-lhes outro qualquer... enganei-me. São tantos papéis.

Mas como se tornou óbvio eu não leio Russo e eles não lêm Português, o papel bem podia ser dasPáginas Amarelas que dava no mesmo.

Depois foi o seguro para o jipe. Na casinha a Sra. Antipática não encontra no Documento Único Europeu o número do motor, com ar grave envia-nos para o número «12». Atravessamos a fria fronteira, e eu que só imagino isto coberto de neve tipo telediscoNikita, de Elton Jonh, até uma outra casinha. Lá dentro explicamos a situação, ou seja estendemos o papel que a Sra. Antipática nos entregou.

Depois de algum tempo a viajar em países onde não percebemos a língua e não conseguimos sequer ler habituamo-nos à sensação de analfabetismo e já incomoda menos pensar, aliás, saber, que a mensagem não passa do emissor para o receptor sem ruído, um ruído ensurdecedor. Não importa, a língua não é tudo.

Temos direito a uma olhadela no motor, a dois ou três carimbos e a uma factura de 60 euros para o seguro do nosso jipe.

Na alfândega tememos a inspecção à carga, levamos tanta que tudo o que se relacione com ela só pode ser doloroso. Abrimos a mala, abrem dois ou três sacos, fazem algumas perguntas. Passaram até agora três horas. Nada mau, estamos quase despachados, quase mesmo, quando o oficial faz a pergunta fatal

«- Têm armas?

- ...»

Sabemos da rigidez da lei russa. É uma pergunta directa, nós trazemos connosco duas pistolas de alarme, de teatro... Não sei bem para quê, nem sequer sabemos usar uma arma mas achamos que mal não fazem.

«- Temos estas, são de alarme... Percebe?... São a fingir...»

Os olhos do oficial, que espreitam por baixo do enorme gorro de pêlo, não deixam adivinhar boas notícias, e desaparece numa das casinhas. Esperamos no jipe, como crianças de castigo.

Duas horas depois dizem-nos que as vão confiscar.

Três horas depois redigem um processo, parecia o do Kafka.

Passamos as seguintes duas horas em entrevista, a responder a um interrogatório em Russo. Mas nós não falamos Russo, o bom amigo Manuel intercede por nós, horas ao telefone a tentar inventar razões russas para as nossas “armas” portuguesas.

Somos obrigados a assinar um documento, em Russo. Alegamos que não tem valor um documento que assinamos numa língua que desconhecemos. Na Europa. Mas como é claro já não estamos na Europa.

Voltamos para o jipe. O oficial “escolta-nos” até um hotel em Taganrog.

Nesta cidade nasceu Anton Tchéckov, em 1860, e aqui foi escrita a sua primeira peça Platonov.

O nosso hotel é tipicamente russo. Grande e mau.

À questão da segurança do jipe fomos obrigados a responder deixando o Ra a dormir lá dentro. Para jantar indicam-nos o night club na esquina. Tentamos. Na entrada três seguranças, encorpados, vestidos de preto, de cabelo rapado e com uma ligadura branca na mão direita, fecham a passagem. Parece-me que dizem que o consumo é obrigatório. Não há problema, nós queremos comer.

Hum... parece-me perceber para que serve a ligadura. Prefiro não ter a certeza. Saímos.

Encontramos um pequeno supermercado e de guiaLonely Planet na mão ensaiamos

khleb, masla, ikra, piva (pão, manteiga, caviar, cerveja).

No desagradável quarto do hotel jantamos uma deliciosa ceia de delicatessen russas.

Passamos a noite a verificar o jipe pela janela suja do corredor, e a manhã seguinte a limpar o vomitado do Ra no banco de trás do jipe.

 

Pelas placas que vemos já deu para perceber que ao mapa em Inglês, essencial para podermos perguntar a direcção das cidades, temos de acrescentar o mapa em cirílico para podermos tentar ler.

Comprar um mapa numa livraria (knizni magazin) não parece à partida uma coisa difícil. Mas é. Eu pareço russa, o suficiente para que as pessoas na ruame peçam informações mas as tentativas para me fazer entender saem frustradas.

É incrível o que a publicidade, que praticamente não há aqui, faz pelo nosso sentido de orientação numa cidade. Antes de encontrarmos o mapa entramos em correios, cafés, num jardim de infância e numa repartição de finanças.

Por fim lá conseguimos comprar, dois mapas, um deles em livro encadernado. O país é grande, demasiado grande.

 

«A sua dor vai passar. A vida é longa, ainda virão coisas boas e coisas ruins, vai acontecer de tudo. A mãezinha Rússia é muito grande!» palavras de personagem num conto de Tchéckov, confortando Lipa, uma jovem camponesa que acaba de perder um filho, assassinado por um parente, e sai vagando pelas estepes.

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