O acidente.
Já se questionaram sobre o que vão dizer uns momentos antes da morte?
Eu sei, vou dizer:
Não! Não! Não! NAAAAAÃOOOO!
No nosso 45º dia de viagem viajamos a 100km/h na estrada entre Astana e Almati. A única estrada no Cazaquistão que é digna desse nome. Aproveitamos o tapete plano e limpo e descansamos os olhos fartos de ver buracos, os pés doridos de travagens súbitas, a alma sofrida com a incerteza do Norte.
Está frio. Anoitece. De repente, vindo sabe-se lá de que conto tártaro ou tétrico, aparece-nos, à frente do jipe um homem de braços no ar, a acenar. Telmo grita a meu lado: «Cuidado!»
O pânico trava a fundo, a inconsciência vira o volante todo para a esquerda, o jipe entra completamente na contra-mão, e à visão das luzes dos que aí circulam uma guinada desesperada para a direita faz o resto, perco completamente o controle das várias toneladas de Toyota. Voamos, cuspidos para fora da estrada.
Do alcatrão para a estepe há um ribanceira que serve de rampa para um salto prodigioso. Durante o voo o jipe balouça para a esquerda e para a direita indeciso sobre o lado por onde prefere capotar. Prevejo o embate e em estranha premonição sinto que vou bater com a cabeça e o ombro esquerdo no vidro da janela. E que vai doer.
Dizemos as que parecem ser as nossas últimas palavras e embora deseje ouvir declarações de amor só oiço:
«NÃO! m****! Partiste o jipe todo!»
«Eu?...», penso. As minhas mãos ainda agarram com força o volante, não me dói nada, o jipe não capotou, aterrou na estepe na latitude 50º07’N e longitude 72º54’E, depois de um salto de 20 metros, não me parece assim tão mal.
Abro a porta e encontro o homem que não matei, o cheiro a vodka chega muito antes dele... Eu e Ra estamos em silêncio, Telmo desfaz-se em palavrões e lições de condução e eu desfaço-me finalmente em lágrimas.
Pára um carro, e outro, e outro, todos os pequenos e magros cazaques se preocupam connosco. Ligam o motor, que trabalha, «normali», dizem. Hum... não sei se a semelhança fonética é também semântica mas não me parece que este voo possa deixar algum veículo “normal”.
Os cazaques despem os enormes casacos decorados com peles e forrados de pêlo, insistem para que os vista. Estendem-nos telemóveis para fazermos chamadas. Mas a milhares de quilómetros de casa ligar a quem? Ligamos ao nosso bom amigo entendido em línguas eslavas, parece que vão chamar um reboque. Por esta altura já mais de dez carros pararam e todos querem ajudar. Vou trocando de casacos.
Testo o conforto de versões modernos de shapan,kaptal, shabu, shekpen, ishik... as vestes tradicionais cazaques, conhecidas pela cuidada escolha dos materiais adaptados às condições da vida nómada e exigências do clima.
Finalmente aparece o enorme e ferrujento reboque e, logo a seguir, um carro da polícia. Um dos polícias fala Inglês mas está mais excitado com o facto de conhecer estrangeiros do que preocupado com o acidente. O tártaro embriagado foi afastado dali.
O reboque não tem como descer a ribanceira íngreme. Os cazaques de camuflado a cheirar a carne frita estudam possibilidades. Conseguem finalmente arrastar o jipe até à estrada, amolgando jantes e pára-choques. O jipe funciona! Anda. Mas perdemos dois pneus e não há onde comprar novos. Oferecem-nos uma boleia até à “cidade” para remendar estes. Remendar!? Bom, seja.
E agora, como fazemos? Vamos os três? Têm medo do Ra e o jipe não pode ficar aqui. Telmo vai, eu fico, com Ra, medo e escolta policial.
A 71 quilómetros dali, numa garagem no meio da sucata, os pneus são remendados numa velha banheira de esmalte.
Daí a uma hora pagamos o serviço e avançamos, lentamente. O jipe dança nos eixos. Trocamos poucas palavras.
Junto a uma bomba de combustível um néonvermelho anuncia um motel. Tem mau aspecto mas estamos cansados, sujos, gelados, zangados e esfomeados. Entramos.
Em cima do balcão um pequeno bibelot, um pastor alemão, segura nos dentes as boas vindas, “welcome”. A recepcionista sorri e mostra-nos fotografias (!) da lyux. Sim, já sabemos que em países de “alma eslava” é só luxos! Aceitam o Ra, aceitamos o quarto sem olhar.
Esta que se assemelha levemente à minha mãe, adivinha-nos os desejos e propõe-nos servir o jantar no quarto. Eu quero colo mas peço carnes fumadas, arroz e cerveja.
Subimos para a suite. A porta está aberta, convidativa e o quarto está quente. Nas paredes amarelas sobressai um arranjo de flores artificiais. A luz suave e colorida envolve uma cama enorme decorada de almofadas de seda dourada. Na pequena sala com sofás e tapetes fofos a televisão de écrã plano mostra um canal oficial cazaque, onde meninas de longas tranças pretas e meninos de bigode tentam representar. Há chinelos de plástico e dois roupões floridos, de seda barata, dos nossos tamanhos. O conforto é relativo. Ra instala-se no sofá grande.
Neva. No dia seguinte os pneus do jipe estão em baixo. Igor, o dono do motel, compadece-se dos dois estrangeiros mal vestidos para o frio e sem jeito para mecânica, em luta com macacos e pneus sem ar, e põe os empregados a ajudar-nos. Vamos directos aoToyota Service de Karaganda onde eu e Ra esperamos ao frio na rua: «Tem frio? É assim, é o Cazaquistão!», sorrio sem vontade. É difícil convencê-los a ver o jipe «normali, normali» vão dizendo. «Normali não! o jipe voou assim! E depois aterrou assim!», vamos gesticulando. Por fim Vladimir acede, mas vai avisando que embora seja mecânico da Toyota não estamos na Europa, os meios são poucos. E tudo lhe parece estar “normali”!
- «Aqui não há pneus novos»
- «Não há?!»
- «Destes nem na capital»
Na sucata escolhemos os que têm melhor aspecto.
Oleg, o dono da oficina nem acredita que tem dois clientes estangeiros, somos os primeiros que por aqui aparecem. Tira-nos fotografias, oferece serviços gratuitos, limpezas ao jipe, chás e biscoitos para Ra.
À noite em comemorações com caviar, foi a vez de Telmo ser derrotado pelo vodka. Felizmente não foi para a estrada...
Seguimos para Almati pela estrada coberta de fina camada de neve, escorregadia.

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