Em belíssimo romance de Mia Couto duas personagens reconhecem-se numa espécie de pátria de mar. Vindos da costa de Moçambique e da costa da Índia têm a mesma pátria. São Índicos.
É verdade, os povos da costa partilham mais da brisa do mar que dos cheiros da terra.
Temos como pátria o enorme oceano, antepassados e história flutuam nele sem fronteiras.
O mar é horizonte aberto, é saída. Para nós ver mar é ver casa.
A lonjura de terra sem saída assusta, fecha-nos. Quando viajamos na estepe, no deserto, entre montanhas, na savana ou nas planícies infinitas o nosso olhar espera o azul da água. Procuramo-lo sempre. E quando chegamos ao mar é irresistível sentar e olhar as ondas, respirar a brisa, molhar os cabelos e salgar o corpo.
Quando viajamos precisamos do azul da água em competição com o céu. Sossega-nos. Precisamos do sorriso franco, do ritmo descontraído, da abertura dos povos da costa. Acarinha-nos.
Atravessamos o globo. De jipe, de mapa na mão. As cidades são madrastas. Enormes desorganizações labirínticas de ruas cinzentas, rotundas complicadas e muitos sentidos proibidos. Mas quando as cidades olham a água são-nos sempre familiares.
Como entender uma cidade sem água? Sem horizonte para onde voltar as esplanadas? As varandas? Sem água não se sabe para onde olham as cidades.
Lisboa olha a água. Todo o Portugal foi plantado à beira-mar. E floresce.
Como as cidades no Sul de Espanha ou de França. Como em Itália, como na Grécia.
Visitamos Veneza como todos os apaixonados precisam de fazer.
Perdemo-nos na cidade feita sobre a água, de ruas inundadas, sob chuva. O cenário da Morte em Veneza, a «cidade inverosímil» de Thomas Mann.
Passeamos sem pressa.
Olhamos as filas de turistas à porta dos palazzos, dos museus, das catedrais. A aproveitar cada minuto das curtas férias para beber toda a Veneza de um só trago.
Não os invejamos.
Vemos os grupos em pose para a fotografia na Piazza di San Marco. Imaginamos as cenas, de volta a casa a mostrar à família que estiveram ali com a camisola de riscas e o chapéu à gondoleiro. Estiveram lá e não falharam nenhuma das atracções que o turismo tem prontas e às vezes já empacotadas, para o turista apressado consumir.
Não os invejamos.
Passamos a casa do Viajante
SOTOPORTEGO DEL MILION
Qui furono le case di MARCO POLO che viaggió le piú lontane regioni dell Asia e le descrisse.
Passeamos pelas ruas feitas de montras brilhantes e vistosas, deliciamo-nos com os capuccinos e os bolos a quilo.
Passeamo-nos de pés na água, em galochas verdes.
Nas ruas cheira a pizzas de massa estaladiça, acabadas de fazer. Os maîtres oferecem taças de Bellni, delicioso aperitivo italiano com sabor a pêssego, e convidam para jantar.
Assumimos que as galochas são Prada e subimos a um dos muito sofisticados restaurantes sobre os canais. A esplanada requintada iluminada com a suave luz das velas olha o canal, a Ponte dos Suspiros, onde os condenados teriam a última visão do mundo antes da execução. É um lugar belo para um último suspiro.
Saboreamos o spaguetti, o rizotto, o vinho italiano, o verdadeiro espresso.
Ficamo-nos até tarde, em doce e digestivo namoro. O céu está descarregado de chuva, o anoitecer recorta pináculos cor de chumbo no céu alaranjado.
De volta ao nosso inundado parque de campismo, um cão feliz e nervoso recebe-nos e enche de pêlos a nossa cama.
No dia seguinte tomamos o ferry que nos leva ao berço da nossa civilização, Mediterrâneo dentro até à Grécia.
A nossa companhia canina obriga-nos a escolher o frio convés, passamos a noite sob tecto de estrelas. É lindo o amanhecer no Mar Mediterrânico.
Já se sente a hospitalidade do povo que nos convida sempre a entrar, a sentar, a jantar entre a família.
A Grécia cheira a peixe grelhado, a queijo feta. Cheira a sobremesas doces, cheira ao aromático café árabe.
Visitamos Epidauro. O teatro mais famoso e mais antigo do mundo. O mais belo.
Olho o semicírculo de filas e filas de lugares à minha frente.
É sempre assim, num palco sem luzes de cena olho, assustada e extasiada, as cadeiras vazias.
Imagino este espaço cheio, logo à noite. Felizmente não verei mais que a intensa luz branca.
Entrarei nesta arena, de alma limpa, corpo quente, figurino e rosto vestido.
Entrarei na arena cega pela luz. Como um animal.
Avanço no centro de pedra. Que pés o terão pisado?
A inconsciência de actriz faz-me esconder nos bolsos as mãos.
Apetece-me testar a voz e desenhar o corpo no palco mágico.
Os turistas a meu lado fazem o teste clássico, deixando cair a moeda na orquestra, ouvindo a extraordinária reverberação do som, perfeito, até à mais distante fila da plateia.
Apetece tentar um gesto que habite este enquadramento perfeito.
Foi-se a coragem. Fico quieta, pés colados ao chão, mãos nos bolsos, muda.
Abandonei o teatro, penso.
Na ilha de Philae, no Egipto, ofereci em sacrifício a Ísis o papel que trabalhava em Portugal.
As páginas de texto fluorescente afundaram-se no Nilo. E na altura até pareciam ser puxadas por alguma coisa. Pela minha determinação talvez.
Não sabia eu quão grande seria o sacrifício.
Arrependo-me? Não minto.
Atravesso a cena e não consigo deixar de sentir que estou em palco. Ou talvez pense que o palco está em mim...
Sinto as minhas costas voltadas para a plateia, sem cuidado ou plasticidade.
Desapareço no fundo de cena, de paisagem natural, de cortar a respiração.
Este momento, em que timidamente piso o palco, é o mais próximo que alguma vez terei de representar em Epidauro.
Em Delfos, no santuário de Apolo, faço as perguntas necessárias.
Sigo a Pedra da Sibila e sinto mesmo o cheiro a incenso que, diz a lenda, lhe permitiria as ausências.
Incenso de rosas arde num queimador discreto sob o altar do templo principal Rosa Cruz provavelmente veneram o local místico.
Seguimos a sinuosa estrada ladeada de ciprestes, sepulturas de legionários romanos.
Seguimos a estrada para o Vietname.
Despede-te meu amor, despede-te da nossa civilização!
Saudade? Talvez.

No comments:
Post a Comment