Tiramos os sapatos. Cubro-me com um lenço negro. Entramos na mesquita pela porta Quiblah virada a Meca.
Numa imensa parede batida pelo sol destacam-se epigramas em caracteres árabes.
O zelador do templo aproxima-se, murmura algo e em inglês hesitante começa a ler para nós:
«As inscrições recordam o nome de um emir chamado Man Atil Zaidan.
Logo que subiu ao trono revelou-se ambicioso. Interessado apenas em obter dinheiro para a corte aparatosa, sobrecarregou as cidades com impostos.
O Emir tinha um vizir (o que ajuda a carregar o peso) chamado Obaid Hazen, homem bom e piedoso que, preocupado, resolveu intervir.»
Afasta-se da parede, sentamo-nos nos tapetes que cobrem o chão, continua num quase sussurro:
«Uma noite Hazen foi ao jardim do palácio e enterrou sob o banco predilecto do rei, uma caixa cheia de moedas de ouro.
Certa tarde sentou-se o emir Zaidan a repousar. Perto de si, seu vizir.
Duas andorinhas vieram pousar numa amendoeira. Cantavam.
O vizir mostrou-se muito atento aos pássaros e em dado momento sorriu, ficando depois sério. O monarca interrogou-o:
- Por Allah?
- Senhor, Príncipe dos Príncipes, vou confessar um segredo, aprendi com um sábio hindu a linguagem das aves.
- Que extraordinária revelação! E de que falavam estes pássaros?
- O passarinho azul que está agora a saltar do galho dizia ao outro "Dormita o nosso rei e nem imagina que debaixo dele se encontra enterrado um tesouro!".
- Ele disse isso? Espantoso!
O soberano ordenou de imediato que retirassem o banco e escavassem. Foi encontrado o cofre que o vizir tinha enterrado. O rei rejubilou, era certo que o seu ministro compreendia a passarada inquieta.
Certa vez, ao cair da tarde, regressava o Emir a casa, com o vizir Hazen. Ao passar junto a uma muralha o senhor da Síria avistou duas corujas:
- O que dizem?
O vizir aproximou-se. Súbito mostrou-se tomado de fúria. Saltou do cavalo, apanhou uma pedra e atirou-a.
- Sucessor do Profeta, perdão! Mas uma coruja reclama da outra: Prometeu como dote à minha filha sete cidades arruinadas, onde estão? - diz a mais velha - Há que ter paciência, verá não sete, mas 70! Basta observar a forma criminosa como o rei Zaidan governa, em poucos meses reduzirá a Síria a escombros.
O emir ficou em silêncio, a profecia da coruja tocou o seu espírito.»
O zelador aponta no texto sagrado:
- «Aqui está o nome do emir Zaidan, até hoje lembrado por crentes e infiéis.»
- «E o nome do vizir?»
- «Não precisa de figurar aqui, está para sempre escrito no céu deslumbrante da Síria.»
Acocora-se no chão e continua:
«O famoso Califa Al-Mutawakil (que Allah o tenha!) disse ao seu vizir Calil Sadek:
- Minha esposa Djohar completa amanhã 23 anos, quero surpreendê-la. Iallah! Vai! Procura no suq!
Uma hora depois Sadek e um damasceno entravam no divan real.
- Diz o teu nome, ó irmão dos árabes! Mostra-me as tuas preciosidades e faz conhecer o preço.
- Que Allah, o Exaltado, estenda sob os pés do Príncipe o tapete da paz e a areia da felicidade e da glória! Melil olbilad el Kabir! (Salve o grande Rei do país!)
Chamo-me Elias Daud Batah.
Aqui estão! Colhidas entre as ondas revoltas do mar de Oman.
O califa não escondeu o seu deslumbramento, continuou o sírio:
- Emir dos crentes, as cinco pérolas nesta caixa de veludo violeta são verdadeiras e dignas de vossa esposa. As outras cinco, tão lindas como as primeiras, são falsas! Mas é quase impossível distingui-las.
- Como pode isso ser?
- Ó Rei do Tempo, a Verdade, em sua singeleza, tem muitas vezes a aparência da falsidade - as autênticas têm pequeníssimas manchas e assimetrias. E a mentira, para iludir a boa fé, veste-se com requintes de perfeição, como nestas.
- E quanto queres, ó homem do turbante cor de tâmara, pelas tuas pérolas?
- Cada pérola verdadeira custa apenas 10 dinares. Cada pérola falsa custará 500 dinares. - Pelo nosso Profeta! É estranho! O certo seria que as pérolas autênticas custassem 500 ou mesmo mil dinares cada e que as imitações fossem vendidas por meia dúzia de moedas!
- Perdão, ó Rei dos Árabes, a vida ensinou-me algo diferente: um amigo enganoso, por exemplo, custa-nos caro, ao passo que um amigo leal e dedicado não nos dá dissabores nem prejuízos. Num casamento falso, custa amarguras sem fim o passo errado que a ilusão nos levou a praticar. Mas o que escolhe uma boa esposa e uma união acertada é feliz e prospera.
O homem paga sempre mais pelo falso que pelo verdadeiro.
Baseado nestas reflexões fixo o preço. Sim, o falso custa 50 vezes mais! Pode parecer estranho ao espírito menos avisado mas imito apenas a vida!»
Levanta-se, Uassalam! Na despedida pedimos ajuda nas indicações do folheto do hotel, o zelador responde sorrindo «Sorry, can’t read».
65km a Oeste de Homs, perto da fronteira com o Líbano ergue-se o qalajat al-Husn, orgulhoso e solitário.
O castelo desafia o tempo.
Numa manhã quente a poeira do deserto satura o ar, Salah-al-Din abandona o seu acampamento. Neste dia despedem-se as mães dos filhos - nas casas dos cristãos como nas casas dos muçulmanos - negócios são adiados, casamentos não são consumados.
O castelo desafia o tempo do mesmo modo que nesse dia, do seu interior, os exércitos cristãos desafiaram um frustrado Saladino no seu interminável cerco.
Neste castelo os cavaleiros do templo lutaram para defender os lugares santos e os manter abertos ao culto cristão. Neste castelo os mamelucos construíram mesquitas para o seu culto.
Numa tarde fresca ouvimos ao longe o sino da igreja no seu interior.
Na torre de menagem esvoaçam os estandartes do Rei.
Passamos as terras cultivadas que alimentam os seus habitantes, circundamos as muralhas.
As portas pesadas estão abertas, avançamos. Passamos a sala gótica, os cães devoram ossos nas tapeçarias. Vemos os frescos pintados pelos Cruzados. Os aposentos reais...
O castelo parece intacto, pronto para receber mais uma vez o Rei de Jerusálem.
Visitamos o Crac des Chevaliers «o castelo mais admirável do mundo» para Lawrence.

No comments:
Post a Comment