Lendas xamânicas vaticinam que um lobo cinzento virá devorar toda a Terra.
Nos lagos da Ásia Central reverberam os sons ritmados do cavalo de Temudjin na sua campanha contra a tribo Merkit. Podemos ouvir a sua voz cantando Boerte, a noiva raptada: "Ao anoitecer, não te encontrei, porém na minha alma, ecoa o teu canto. O meu coração é uma luz solitária na margem. Ah, bela amada, vou esperar-te toda a noite.". Podemos ouvir os suspiros lascivos do seu reencontro.
No coração do império do grande líder mongol, nas abandonadas margens do lago Balkash procuramos um sítio para dormir, um néon vermelho brilha “777”, vamos ver. O hotel foi remodelado à pouco, em paredes de contraplacado há pinturas berrantes e altos relevos, de esferovite! É indescritível. Mas nem pensamos duas vezes, desde que aceite o Ra... O jovem cazaque da recepção não quer aceitar, mas perante a oferta de mais uns tengs cede a ignorar que Ra entre pela porta dos fundos. Mas a porta é uma escada de incêndio, feita de grade larga, as patas de Ra enfiam-se nos degraus. Gane, não quer subir. Telmo sobe os dois andares com os 50 quilos de cão ao colo. E no quarto somos obrigados a ignorar o frio, os lençóis usados, as baratas, a banheira sem água quente, as caganitas de rato debaixo da cama. E ao jantar ignorar o cheiro da cozinha, o pegajoso das mesas, a cor surrada da loiça de plástico, o sabor da comida. O jipe fica guardado no armazém das traseiras, de manhã, enquanto carregamos a mala e passeamos Ra - sob o olhar de camionistas cazaques, em toalhas, vindos da sauna – invade-nos o cheiro de peles de carneiros acabados de esfolar que secam no exterior do hotel. O recepcionista vem despedir-se de nós, em blazer enodoado, deseja-nos sorte, acena sorrindo. Seguimos viagem.
Ao longo da estrada, de pequenas cabanas feitas de madeiras e plásticos saem cazaques gordinhos, em casacos de pêlo, exibindo orgulhosamente enormes peixes secos.
Avançamos pela estepe que recebeu a família de Gengis, expulsa do seu clã, entregue à esterilidade da terra; a estepe que exibe as estátuas, desenha as sombras dos exércitos do Grande Cão, a libertar a flecha no momento exacto do galope em que as quatro patas do cavalo o impulsionam no ar; a estepe que acolhe os acampamentos, as enormes manadas de cavalos que alimentam os exércitos com o sangue das suas feridas, os exércitos tão ferozes que tinham de ser amarrados; que na guerra cavalgavam ao vento enfrentando os arqueiros, avançando de boca aberta, babando de alegria. A estepe que Tchinghis Khaan estendeu do Mar Amarelo ao Mar Negro, devorando quase toda a terra. A estepe que guarda o seu túmulo, que amortalhou todos os que assistiram ao seu enterro e pudessem identificar a sua sepultura, que permanece secreta.
Seguimos para Norte, Karaganda e depois Kostanay. Neva. Nas enlameadas cidades cazaques tudo tem a cor da ferrugem, tudo é favorecido pelo branco da neve. Levamos o jipe a um reconhecimento de água. Basta um dia para o pó da estepe devorar a pintura, os vidros, a matrícula.
Vingamo-nos dos sacrifícios e aproveitamos os contrastes, nas riquíssimas cidades cazaques (nunca vimos tantos Land Cruiser juntos!) hospedamo-nos em hotel de luxo e fazemos as saunas necessárias para recuperar coragem e seguir para a fronteira com a Rússia. É desoladora, rodeada de erva seca e amarelada, algumas barracas, velhos carros abandonados. No control de passaporte aguardamos entre fila de cazaques.Olham-nos intrigados, olham o passaporte surpreendidos. Talvez porque sorrio para eles sorriem para mim e perguntam:«Kasakhstan normali?», se acho o Cazaquistão bom, agradável. Não, não acho. Nem bom, nem agradável e muito menos normal. Mas continuo a sorrir: «Da, normali.», entreolham-se um segundo e rebentam a rir, em coro inesperado, estridente e triste. Claro, nem eles acreditam, não há nada de normal ali.
Na alfândega seguimos o oficial de fronteira, escada de madeira suja acima, até ao gabinete do oficial bem fardado que nos explica que porque vimos da«China onde como se sabe há muitas drogas»temos de descarregar e scannar toda a nossa carga...
A China!... tivéssemos nós a arte de Temudjin, incendiá-la de seus próprios pássaros.
«Como?!», “aqueles tipos controlam até os telefonemas nas mercearias! E nós já atravessámos todo o Cazaquistão, isto é a fronteira de saída!” - pensamos, mas não dizemos. Começamos o doloroso descarregar do jipe, o oficial acompanha o processo e quando vê as quatro caixas plásticas, grandes, transparentes, onde transporto os cosméticos - sim, eu sei que segundo Genevieve Antoine Dariaux «Hoje em dia não faz muito sentido viajar-se com uma grande quantidade de produtos de beleza, a não ser que se parta numa viagem muito longa para um país primitivo que ainda não tenha sido descoberto por Elizabeth Arden.», mas é esse o caso e é conversa que não tento ter com o oficial de fronteira que pergunta «Cosmetic?», aceno. Os olhos dele abrem-se em censura e desenrola em Cazaque cerrado uma história qualquer sobre eu dever ser obrigada a ir atrás do jipe com esta particular carga às costas. A expressão é dura, ou não brinca ou o humor é duvidoso. O oficial atrás do scanner fixa o écran do computador e parece ter visto numa das minhas malas algo que lhe chama a atenção. Já o imagino a remexer entre a minha roupa interior quando um falha de energia faz o sistema ir a baixo e a ambos os oficiais perder o fôlego para esta empresa de procura ao suborno. Quero dizer, às drogas!
Depois de seis horas na fronteira – mas a estes tempos de passagem já nem damos importância a estas demoras - voltamos a pôr tudo no jipe, sem um único item confiscado, o que muito me surpreende. E claro que se drogas trouxéssemos, drogas levaríamos.
A sorte sorriu-nos, mas avançamos para a Rússia, e já sabemos que quando se viaja assim, sozinho, por terra, onde os quilómetros não podem ser feitos senão por nossa mão, emoções de satisfação e alívio são raras.
E efémeras.

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