Quando começamos a ter saudades das festas de família e das comidas de que não gostávamos quando éramos miúdos, é sinal de que começamos a envelhecer.
Lembro-me do cheiro ácido das uvas acabadas de pisar, dos lanches de bacalhau assado na brasa à sombra dos pinheiros, das ceias de bucho de porco recheado à lareira.
A comida portuguesa é muito boa e saudável, toda a gente sabe. Quando na Turquia me perguntam que especialidades lusas sei fazer, eu – que sempre preferi comida indiana, chinesa ou japonesa – fico um pouco envergonhada.
Na minha infância, as avós cozinhavam ‘tachada’ e os avós temperavam o vinho novo com colheres cheias de açúcar. Lembro-me de que nos dias de festa – na descamisa do milho, na vindima, na apanha da azeitona – a família aumentava. Vinham os tios da Suíça, o priminho da América, os viscondes de Torres Novas, as primas loiras de S. Mamede e as morenas da Chamusca, o tio angolano e os afilhados de Loulé, os padrinhos de Peniche, os tios da Atouguia...
A minha mãe distribuía cumprimentos. «Esta é a minha mais nova. Joana Filipa, cumprimenta o primo! Não te lembras dele?». O primo crescera, já estava careca, eu olhava-o confusa... Havia muito trabalho. Durante o dia, todos se envolviam em pó e terra – e eu fugia, inventava trabalhos de casa e estudos inadiáveis. À noite todos partilhavam a refeição – e aí eu não conseguia fugir.
Lembro-me do frio, do cheiro a palha e do bafo quente das vacas.
À matança do porco era preciso ir com aquela ‘roupa de trazer por casa’, porque «sabes que em casa da avó te sujas sempre», e com aqueles sapatos velhos «para não estragares no lume os bons». Avançava de gorro do irmão na cabeça e Kispo da mãe pelos ombros, botins de borracha pelo joelho e calças de fato de treino entaladas em várias meias de cores diferentes. Era pouco dignificaste.
Se chegava cedo e o animal ainda estava vivo, tinha ataques de vegetarianismo e estragava o apetite aos presentes com choros sobre «o pobre do bicho», «a crueldade dos homens» e as virtudes das couves e das cenouras. Às vezes chegava tarde, e o sangue fresco já ensopava o mato espalhado à porta de casa, enjoativo.
Depois havia muito barulho e pouca privacidade, longas conversas sobre as minhas negas a Matemática e a minha puberdade precoce.
Nestas noites cortava sempre os dedos a partir carne para chouriças e morcelas. Nauseava com as tripas para lavar com água, sal e limão. Brincava pelos cantos mais misteriosos da casa, entre manjedouras e arcas de madeira cheias de sal, milho e roupas velhas. Fazia com os irmãos e os primos bandas de música, com panelas, tachos e bacias.
À refeição havia duas mesas, e era na mais baixa que se sentavam as ‘crianças’. Matulões de faces rosadas pelo fresco do ar da serra e aspirantes a artistas urbanas presumidas (como eu), todos se apertavam com os priminhos em terceiro e quarto grau em ranhos e nódoas, na mesa pequena. Todos com o mesmo tratamento do campo – revigorante, vigoroso, bruto.
«Comer p’ra diante!», ia ordenando o chefe de família. Hummmm, língua de vaca cozida, delicioso!
Havia sempre broa e pão caseiro, que eu comia ainda quente com manteiga e açúcar. Polvilhava de açúcar e canela as ‘filhoses’ que os meus avós maternos feitiçavam na lareira. Provava os cafés de cevada cremosos.
Todos passamos por estes momentos em que a família se junta para basicamente comer.
Na minha, há os que cozinham e os que comem, e eu infelizmente nunca consegui inserir-me em nenhum dos grupos. Confesso que a culinária portuguesa é para mim indigesta, mas os meus parentes foram abençoados pelo saudável ar do campo e uma pizza ou uma pasta são já demasiada ‘estrangeirice para eles’!
Nas ceias de Natal, quando se servia o sofisticado bacalhau espiritual que a minha irmã cozinhava com talento, era quase por favor que os familiares levavam o garfo à boca. Ouvia-se o impagável comentário do meu avô: «Não me sabe mal». E o da minha avó materna: «É bom, não é preciso mastigar». E ainda o da minha mãe: «Sabes o que é bom? É que não é enjoativo». E era por diplomacia que a minha mãe fazia mais ou menos às escondidas um prato alternativo a esta experiência, ou seja, o prato habitual.
Na minha família os mais novos não provavam as delícias tradicionais e os mais velhos desconfiavam de tudo o resto.
Estou fora da casa materna há alguns anos e envelheço. Sei pelos livros que envelheço. Que quando nos chega a saudade dos cozinhados que a mamã fazia sem pompa – o arroz de grelos, o bolo de laranja, o arroz doce, a feijoada de entrecosto –, e com isso vem o lamento de não ter aprendido com a avó a tender a massa ou a fazer queijos frescos, sabemos que envelhecemos.
Estou fora da casa pátria há quase dois anos, e nos caminhos pelo mundo muita ‘estrangeirice’ provei e imagino as máximas da minha família aplicadas à sopa de panquecas da Áustria, ao queijo feta da Grécia, à popular bebida ayrian da Bulgária, ao repolho recheado romeno, ao borsch da Ucrânia, ao caviar da Rússia, à carne de cavalo dos nómadas cazaques, aos olhos de carneiro dos uigures...
Em terras turcas, o sentar à mesa – longo, ritual, perfumado – é delicioso. Em Antakya, embora seja pequeno-almoço, os pratos desenrolam-se, sem vergonha, em saladas de pepino, pastas de sésamo e guisados de borrego.
Para meze (aperitivo) há beyaz peynir (queijo) e zeytinyagli biber dolmasi (pimentos recheados). Há cerkez tavugu (frango com nozes) no tabuleiro do fundo, e na mesa ao lado as famosas delícias turcas: ton birimi (favos de mel), antepfistikli kurabiyeler (biscoitos de amêndoa e pistácio), tavukgogsu (doce cremoso com frango), bademli gullaç (doce de leite, amêndoas e água de rosas), nuriye tatlisi (pastéis de amêndoa), susam helvasi (torrões de sésamo)... E, nos jarros, os molhos de iogurte em variações sem fim, dos doces aos salgados, dos cremosos aos empastados.
É dia de festa, sou a única mulher e ofendo a refeição sagrada com a minha presença. Somos convidados a brindar com Raki. Ou melhor, o Telmo é; eu aguardo na mesa do fundo. Cubro-me com o lenço, pequeno demais para todas as partes do corpo que preciso de tapar.
– Que lhe parece? É licor de anis, a nossa bebida nacional!
– ... Não me sabe mal – responde o Telmo.
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