Monday, March 23, 2015

Paranóia II


Há na Rússia uma cidade no krai de Krasnodar chamada Sochi.

Aí retidos Telmo e Filipa percorrem as ruelas à procura do porto para perguntar pelo barco que os levaria a Trabson, na Turquia. Era para lá que viajavam. O estado de ânimo de Telmei era sombrio, como sempre acontecia com ele na Rússia.

A viagem tornara-se difícil. As portas da China fecharam-se como uma caixa chinesa, da embaixada do país em Portugal negaram terem deste casal conhecimento e do governo do Vietname responderam com a reserva e cuidado de quem lida com assuntos secretos. Telmei por esta altura já desconfiava de conspiração internacional, tinha a certeza, escondiam-lhe algo, até foi por sugestão da Embaixada de Portugal em Moscovo que foram assim, primeiro enganados, a caminho de Rostov e agora para Sochi. Porquê?

Sochi é uma estância balnear, cosmopolita - dizem-lhes. Mas não parece.

Telmei e Filipenka desconfiam e a Sochi chegam desesperançados. Estacionam os cavalos do Land Cruiser à porta do hotel e à entrada batem na madeira, para afastar as coisas más. Na recepção do enorme hotel Zemushkina as meninas informam, informam que não há barco à três dias porque há tempestade no mar.

Telmei e Filipenka deixam-se cair na napa dos sofás do lobby, em jornais antigos, perdidos nas mesas de vidro, há notícias de um naufrágio. E é aqui que a água do Mar Negro escurece o ar.

No dia seguinte o Ra fica no quarto, os cavalos no parque e Telmei e Filipenka saem a procurar o porto, precisam de ver se não são enganados.

A sala de espera está cheia de pessoas com sacos e malas. Ninguém sabe, mas ainda assim vendem-lhes bilhete para o barco improvável, reservam suite lyuximaginária. De volta ao hotel esperam. Telmei não sabe o que fazer, não consegue ler ou escrever. Desconfia da viagem, das chuvas, do barco... Começa a desconfiar de Filipenka. Os factos e a lógica bem lhe diziam que tudo isto não passava de absurdo, mas era inútil resistir. De manhã, Telmei levantou-se da cama com suores frios na testa. Ao pequeno almoço não come nada e desconfia daquele gosto de Filipenka Joseevna por kefir, a bebida russa com sabor a queijo que ele detestava. E porque comia tantas blinys, as panquecas sensaboronas?

Sochi está coberta de neve, mais uma vez vão saber do barco. Em frente ao hotel um polícia passa, vagaroso, não é por acaso. A sala de espera do porto acumula pessoas, sacos e cheiros. Hanz e Enzo, dois viajantes ao volante de um velho Volvo, esperavam o mesmo barco, e pensavam seguir pela Geórgia, mas, dizia-se, «lá não é difícil entrar, mas é impossível sair». Pelo vidro embaciado Telmei olha dois polícias na rua, porque estão tão calados? Passava dias torturantes, se os lúgubres pensamentos o não largavam durante horas, tal significava que há neles um grão de verdade. Estas pessoas para nos culpar de algo e nos condenar a trabalhos forçados só precisam de uma coisa: tempo. É o tempo que permanecem em Sochi que assusta Telmei.

À saída do porto os polícias interpelam-nos:

- Passport! – de mão trémula entregam-nos, os polícias folheiam-nos,

Where did you sleep last night? – perguntam a Filipenka. Telmei estremece, Filipenka responde apoiada no “Russo básico” da Lonely Planet

Prastite, Ya ni gavaryu pa ruski, ya transit Turquia. Transit! Transit? - Telmei agora tem a certeza, engana-o, é russa! Filipenka explica que disse apenas que não falava Russo, estava em trânsito e ele que fosse chatear outro! Habitualmente o argumento funciona, limita o assédio policial e envia-os, neste caso virtualmente, para outro país. O que se passava é que no imigration card amarelo, que receberam na entrada do país e ao qual Telmei nunca deu atenção há um espaço para os carimbos dos hotéis, para controle policial (!), é só isso. Foi Telmei que fez o check in no hotel, Filipenka não tem carimbo. Parece lógico, claro, rotina, mas Telmei duvida.

Os dias passam, não há barco que se aventure a atracar, quanto mais a zarpar. Telmei telefona de dia e às vezes à noite, nas horas de insónia, mas Ludmila, a funcionária do porto desmente a clemência das marés. No hotel Zemushkina as meninas da recepção informam que vão ser postos na rua porque o visto termina naquele mesmo dia. Telmei Maritrioch estremece, mas não podem sair do país! As Natachas e Ninas não sabem, não querem saber. Que durmam no jipe e arrisquem a vida na esquadra de Sochi, para elas é igual, e já nem lhes dão a chave. Telmei e Filipenka arrastam-se ao gabinete a pedir prorrogação do visto, «Por um dia talvez, se calhar por umas horas, mas é a lei russa...», diz Telmei para si próprio entre ranger e bater de dentes. O processo exige horas em esperas na rua, ao frio. Abrem-lhes a porta mulheres gordas, brancas, empoleiradas em saltos agulha sem capas - cada passo um guincho metálico - maquiavélicas. «I am not a sabaca!», rosna Telmei, enquanto impede com o pé que voltem a fechar a pesada porta, que não são cães!

De volta ao hotel na recepção as meninas informam, informam que são procurados pela polícia!

De Ludmila recebem o telefonema, o barco parte às duas horas, vestem à pressa os casacos e saem de corrida com o cãozinho Ra pela trela curta. Encontram com dificuldade o porto e com mais dificuldade conseguem fazer entrar o jipe na plataforma de embarque. Mas Filipenka não pode entrar, fica atrelada ao cãozinho Ra.

Chove, ensopam as peles do casaco fora de moda que vestiu de manhã. O porteiro de olhos vazados vem chamá-la para que entre, se proteja da chuva, entra, e na primeira oportunidade escapa-se em corrida «corre Ra!, corre!» encontrando Telmei rodeado de oficiais, fiscalizações, carimbos e interrogatórios.

Este é o quinto dia de espera em Sochi, e o barco está pronto, o lyux que os esperava lá dentro? Ouve-se os calhaus de gelo a baterem contra o batelão. Uma humidade, um frio, foram deitar-se. Uma rabanada de vento abriu a porta, para dentro da “izbá” soprou a nevasca.

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