Monday, March 23, 2015

Almas eslavas



Na Rússia não visitamos S. Petersburgo ou Moscovo, a realidade russa encontra-se aqui, na província. Não é melhor, é corrupta, decadente e miserável, mas é real.

Percorremos verstas e verstas entre izbas de madeira. Nos varandins, janelas e portas as esculturas de animais rendilhados tomam aos nossos olhos formas assustadoras. Nas pequenas casas demujiques (camponeses), aquecidas pelo grande forno de barro, somos recebidos no krasnyi ugol, um cantinho decorado com ícones dourados, linhos bordados e uma pequena mesa com velas e fotografias de família. Curvamo-nos perante o pequeno altar, Olga, a menina russa serve-nos chá quente do samovar prateado, não parece simpática, ou talvez sorria por dentro, mas não sabemos de que tratamento se trata, tradicionalmente a honra de partilhar este espaço é dada às visitas, ou aos defuntos.

Os homens russos, formais, de fato completo, lembram todos Tchitchikov que vem da grande cidade para comprar almas mortas.

As cidades russas são grandes e caóticas, na entrada a fila de izbas contrasta com os prédios altos e cinzentos.

Rostov-na-Donu demorou uma hora e trinta a atravessar, aqui os olhos ficam cansados e as mãos nervosas, para onde? Não há placas, ou são impossíveis de ler, e temos de parar em todas os cruzamentos para perguntar às “irmandades” qual a direcção. Vemo-nos rodeados por estas criaturas. Olham-nos, falam entre si, observam o carro, a matrícula, o cão. São a Bratva, a Organizatsiya, a célebre máfia russa!, pensamos. Tentamos fingir-nos turistas e não simples provincianos, servos de gleba propriedade de um senhor, à mercê da burla de comprar servos mortos para os hipotecar e obter empréstimos (a visão satírica de Gogol, em Almas Mortas, da Rússia anterior à abolição da servidão).

Perguntamos

«- Pryama? Na pravna? Na leva?» (frente? direita? esquerda?) e tentamos perceber a resposta.

Como Gogol, rimos para não chorar, apiedamo-nos das almas penadas. A Rússia é dificil. É difícil porque é... a Rússia. É enorme e agreste. Somos descriminados pelo nosso aspecto, por não falarmos Russo. Por sermos estrangeiros somos sempre tratados como intrusos. Nas ruas, no hotel, no restaurante, nos check point nas estradas, sentimos uma animosidade latente, os olhos claros, as peles avermelhadas e as cabeças ruças ardem de diabólico vermelho.

A vigilância policial é constante, e quaisquer dez quilómetros de excesso de velocidade bastam para que nos mandem parar e peçam dinheiro. A conversa do milicia só termina depois de sermos convidados a entrar no carro-polícia para pagar:

«- Dez dólares.

- Dez dólares!!?

- Não, não, rublos, dez rublos.»

Aproximadamente trinta cêntimos de corrupção, portanto.

Conselhos para viajar na Rússia? Os mesmos do pai de Pavlucha

 

«Vê lá (...) se não fazes asneiras (...) sobretudo, usa de lisonja (...) Se agradares aos superiores, mesmo que (...) Deus te não tenha dado grandes talentos, andarás para a frente e ultrapassarás os outros todos. (...) caso faças alguma amizade, que seja com os mais ricos (...) Não presenteies ninguém (...) poupa o teu copeque: é essa a coisa mais segura no mundo. O colega ou o amigo vão aldrabar-te e serão os primeiros a trair-te na desgraça, mas já o copeque te será sempre fiel em todos os contratempos.»

 

Na longa recta que atravessa o país passamos as estátuas de homenagem ao Socialismo, enormes, negras, imóveis, plantadas na planície seca.

Intourist, em Stavropol, pertence à cadeia de bons hotéis criada nos dias da União Soviética. Entramos no lobby de chão de mármore e lustre de cristal, promete. Mas não cumpre, a este truque já estamos habituados, depois de subirmos as escadas pelos corredores escuros encontramos os quartos negros, sem banhos, sem água quente. Nas pequenas e desconfortáveis camas o áspero cobertor não chega para tapar os pés e estou convencida de que é o dormir com os pés de fora que explica a alma eslava.

Compramos uns minutos de sauna privativa. Parece um bunker, descemos no elevador até à cave, e depois um par de lances de escadas, atravessamos longos corredores, seguindo a massagista grande e sisuda que fecha portas atrás de nós. Pelo caminho passamos por sucessivas salas com cheiro a fumo, sofás de cabedal e mesas baixas de chá, de jogo, de massagem, de bebidas espirituosas. Finalmente vemos as toalhas e roupões brancos na sala de tecto espelhado, com uma pequena piscina de água turva e uma quentíssima cabine de madeira. Lá dentro o calor é insuportável, queima, somos cozinhados?

A alma eslava da recepcionista do hotel não gostou da presença alemã do nosso cão, que teve de ficar a dormir no jipe. A imprevisibilidade da viagem é para ele uma tortura, sozinho e triste, recusa-se a comer. Já aprendi a dizer àgua em russo, vada, mas não a evitar as garrafas de água gaseificada, as mais comuns. Ra olha para mim, inclina a cabeça, levanta a pata e engelha o nariz agredido pelas bolhinhas de água. Lamenta-se, tem saudades da água lusa, sem espinhos.

Jantamos “ouro negro” e vodka. A culinária russa é desinteressante, mas o caviar é delicioso, verdadeiro caviar de esturjão a seis euros a dose. Aproveitamos, quando poderemos ter outra oportunidade? Ainda não sabíamos que voltaríamos à Rússia em breve, muito breve.

A sala de jantar, enorme, tem no tecto uma antiquada bola de espelhos, nas mesas grupos de rapazes eslavos olham-me. Algum tempo depois são levados em braços, ou arrastados pelo chão, encharcados de vodka.

Nesta parte do país mantém-se um hábito medieval, a entrada das cidades é controlada num check point. Todos os carros têm de parar, somos obrigados a sair, subir até ao primeiro andar da estrutura de madeira e fazer o possível por sobreviver e seguir viagem. Mostramos documentos, vistos, ensaiamos o ni panymaya (não compreendo) em resposta aos pedidos de dinheiro.

Pela estrada russa vemos passarinhos, ou melhor, bandos de corvos devoram carcaças de cães atropelados.

Como Gogol temos medo e vemos diabos por todo o lado, todas as pessoas nos parecem diabólicas...

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