Quando dois gatos escavaram uma nascente e uma rã voou com asas, pulgas amestradas caíram, e as pedras saltaram sobre elas. O galo foi um imã, a vaca um barbeiro, o javali dançou; tudo isso aconteceu quando o Padishah era velho.
Quando Massis era “A Mãe do Mundo” o dilúvio empurrava Noé pelo Negro Mar, a sua Arca atracou em Ararat. Quando os homens a procuraram subindo o monte foram abatidos pelos curdos. Quando as neves em Novembro cobrem o Monte Ararat, quando o camelo era mensageiro, quando os castores mudavam o curso dos rios, viajamos para cima e para baixo nas rotas terrestres, até à Turquia.
Quando em Esmirna nasceu Homero. Quando os poetas falavam no teatro de Éfeso. Quando Paulo e João pregavam a palavra de Deus. Quando Maria foi reconhecida mãe de Cristo. Quando em Tróia aprenderam a desconfiar dos gregos e dos seus presentes, Eneias partia para os braços de Dido.
Quando as oliveiras davam sombra viajamos nós para cima e para baixo nas rotas da Turquia.
Quando os gregos moravam no cálido vale de Hierápolis. Quando os homens se banhavam nas águas termais das piscinas do salute per aquum e as cascatas de água calcária na colina formavam bacias gigantescas de águas azuis ou verdes. Quando chamavam à colina branca Pamukkale (castelo de algodão), escorregamos na pedra polida pelas águas mornas.
Quando subimos as escarpas de Denizli, em testes às potentes mudanças redutoras do nosso todo o terreno, no seu topo, em construções trogloditas encontramos os anciãos Alevi, Rafat e Ally. «Nós somos três irmãos», diz o mais velho, «o nosso pai morreu há muito tempo e deixou-nos um turbante, um chicote e um tapete de oração. Quem usar o turbante torna-se invisível. Quem se sentar no tapete voa como um pássaro e quem fizer estalar o chicote possui o dom da verdade. Quem deve receber o turbante, o chicote ou o tapete? Esta é uma questão que discutimos continuamente.»
«Quando o primeiro mortal apareceu sobre a terra e os peris rejubilaram sobre o maravilhoso trabalho de Deus, os dews invejaram-no. O pai do mal quis destruir esse trabalho, cuspiu sobre o Primeiro Homem, imaculado, e atingiu-o na região abaixo do estômago. Mas Allah, o todo-misericordioso, rasgou a carne contaminada, atirando-a ao chão. Da marca da carne arrancada surgiu o umbigo. O pedaço de carne, impuro por acção do Maldito, renasceu a partir do pó, e assim, quase em simultâneo com o homem, o cão foi criado. É por isso que Maomé se recusa a tolerar o cão na sua casa.»
Quando para o muçulmano o cão era o seu implacável inimigo procuramos nós hotel na Turquia:
- Do you accept dogs?
- Dollars? Yes, no problem.
- No, dogs.
- ...?
- Ão! Ão?
- No, we do not, of course not! Don’t worry about that, we never do!
- No, but we… OK, thank you…
Quando as mulheres escondiam os cabelos e guardavam o sorriso, quando as crianças conduziam o gado, quando o muezzin chamava para a oração entramos nós no Donner Kebab, numa rua de Nevsehir.
Sou a única mulher na sala com cheiro a cardamomo e carnes guizadas. Depois da refeição o empregado de mesa vem, formal, oferecer água de colónia... a resposta exige alguns momentos de observação dos locais, que a esfregam nas mãos, imitamo-los.
Quando os povos escavavam na pedra ou na rocha as suas casas.
Quando os vulcões Erciyes e Hasamdag entraram em erupção. Quando as variações térmicas da terra fizeram estalar a cobertura das rochas e formaram campos planos de poeira vulcânica, montículos, mesas, montanhas tabulares, canyons. Quando as fadas tocaram com a sua magia as pedras pintando-as de cinza, bege, lilás, dourado. Quando os animais falavam vivia na Turquia um Vizir com duas filhas.
Quando os homens esculpiam igrejas bizantinas nas paredes do vale de Goreme, quando pintavam em frescos serpentes estranguladoras. Quando compramos tapetes em Konya e admiramos nas margens do Bósforo a silhueta recortada dos minaretes que engalanam Istambul, vivia na Turquia um sultão infeliz.
Quando os gregos festejavam o amor com templos e libações foi construída uma cidade em Caria. Quando Afrodite era para os homens o desejo, a beleza, o amor. Quando a terra tremeu trouxe a àgua, em inundações que escureciam o mármore branco das pernas da deusa, ruinaram os seus templos. Afrodisias não mais recuperou. Quando viajamos na Turquia beijamo-nos na entrada principal.
Quando os povos invasores vindos da Ásia Central percorriam as planícies em busca da pilhagem, nas chamadas “planícies de passagem” as cidades são subterrâneas.
Quando nos vendem pedras preciosas falsas e nos oferecem perfumados kahve, café turco, lêem o nosso destino nas borras grossas. Quando mergulhamos pelos túneis labirínticos de Kaymakli ou Derinkuyu conhecemos Aziz.
Quando provamos hummus, felefel, ou baklava, até os heróis dos contos páram para deliciar-se.
O filho Deniz levantou-se:
«Então o Príncipe Hussein esteve aqui e raptou a filha do Sultão! Mas não esperam pela demora, irei apanhá-los aos dois.
Dizendo estas palavras sentou-se, calmamente, bebeu chá e fumou o seu cachimbo de água, depois levantou-se e correu atrás deles.»
Quando a capital da Turquia se chamava âncora, Ancara. Quando foi tomada pelos hititas, frígios, persas, romanos, otomanos, árabes, seljúcidas e mongois.
Quando Istambul era o centro do império otomano, derrotado no final da Grande Guerra. Quando Mustafa andava na escola foi chamado de Kemal (perfeição), quando apadrinhou a nova república chamou-se Ataturk, ou “o pai dos turcos”.
Quando Ataturk foi presidente aboliu o Sultão, o Vizir, o Paxá; promoveu a separação entre a religião e o estado; baniu o Fez (chapéu otomano) e o véu das mulheres; abriu escolas para o ensino da arte; levantou a proibição do álcool.
Quando a região de montanhas nevadas, densas florestas, lagos, pastos, planícies, vales férteis, rios como Tigris e Eufrades era conhecida como a Alta Mesopotâmia. Quando o clima era extremo e as pessoas reservadas.
Quando a Turquia não pertencia à Europa mas as estradas não sabiam, viajamos suavemente, montanha acima, vale abaixo.

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