Monday, March 23, 2015

Chien ~ a humildade


Nas ruas de Korgas cheira a legumes podres e excrementos de galinha. Um pequeno fosso entre a estrada e o passeio é contentor para todo o tipo de lixo. Estamos aqui.


O hexagrama:

Acima K’un. O receptivo, a Terra

Abaixo K^en. O imóvel, a Montanha

O julgamento: Aquele que estiver em posição inferior será ajudado, aquele que estiver em posição superior terá sucesso se for humilde.

A imagem: Na terra a montanha, a humildade.

O homem superior subtrai o que é demasiado, aumenta o que é pouco. Ele pesa as coisas e fá-las iguais.»


Sim, mas nós empreendemos a viagem por terra, sozinhos, de Portugal à China, seremos humildes, modestos?

Falhei, não segui o conselho da sabedoria ancestral, ficámos quase um mês aqui, retidos na vila de fronteira da China, a aprender.

Quando era pequena brincava a adivinhações e oráculos. Fazia moedas mágicas, Runas, baralhos místicos e dados enfeitiçados. Nas buscas de esoterismo encontrei o I CHING, o Livro das Mudanças, o Livro Sagrado do Oriente, o clássico chinês escrito pelo lendário imperador Fu Hsi, o manual de adivinhação reescrito por Confúcio.

Mas na moderna China não encontrei sabedoria ancestral, manhãs de Thai Chi, bálsamos de ginsengou imagens Buda feliz. Na China actual todas as cidades ambicionam ser Nova York, e até em Korgas, perdida entre os Altai, há prédios, néons,internet cafes, multibanco, e chocolates Dove. No nosso confortável hotel há um Starbucks Coffee, decorado de pontes, jardins de bambú e flores artificiais, com o slogan «No Lanzhou hotel prove todo o exotismo de um verdadeiro café à italiana».

Na China não joguei as moedinhas mágicas, mas os hexagramas, as alegorias, os julgamentos e codificadas linhas formadas pelo lançar da minha fortuna acompanham-me. Vejo as imagens: o céu, a montanha, o lago.

As alterações do céu reflectem-se no lago artificial do jardim do hotel, da nossa rua vemos o brilho das neves eternas nas montanhas Altai, da janela do nosso quarto as tempestades e dos jardins sujos o pôr-do-sol.

A natureza envia mensagens, imperscrutáveis.

No hotel, chinesas de pele macia de seda e branca de porcelana massajam-me o corpo em movimentos bruscos e desritmados, caminham sobre as minhas costas em perícias Thai, trabalham cada músculo com os seus dedos leitosos. Os saltos altos, a maquilhagem, os sorrisos, denunciam e anunciam outros serviços, pago os dólares da tabela. Na China o que é proibido não existe.

«Nove na posição cinco: Dragão voador nos céus.

Mais longe, para o homem ilustre.»

Para nós o “homem ilustre” é a Cônsul, a funcionária da nossa embaixada em Pequim, o nosso Secretário Geral do MNE.

Viajar por terra, sozinho, e ter problemas para resolver não é a melhor apresentação ao corpo diplomático, mas entre as sonoras gargalhadas de Luiz de Albuquerque Veloso, o CD faz milagres de diplomacia em terras codificadas, e conseguir que aceitem o nosso jipe à guarda da alfândega chinesa e a presença do nosso cão no país são sinais auspiciosos como dragões voadores. Sabemos disso e agradecemos os esforços.

Mas o nosso caminho não é por aqui.

Vendo de perto os placares espalhados pela cidade não é necessário saber Chinês para perceber o aviso, está ilustrada como uma BD a pena - execução pública: no primeiro quadradinho o estádio, no segundo a bancada a encher de pessoas, no terceiro os condenados a tomar os seus lugares, e depois os carrascos, seguindo-se o espectáculo final, a bala na nuca.

Teimamos ainda «atravessámos já tantos países,não são os chineses que nos vão derrotar!». A falta de modéstia continua.

Sentados no restaurante do hotel, entre cabeças inteiras de animais, massas de arroz e saladas frias picantes, já experimentámos, por falta de pontaria no menú, quase todo o tipo de pratos uigures. Aqui tudo é surpresa, só se escreve em Chinês e é impossível comunicar noutra língua.

Na culinária uigur todos os pratos têm simbolismo: ao servir a cabeça de ovelha a orelha deve ser cortada e dada à pessoa mais nova à mesa, para que oiça os mais velhos; o pedaço perto do olho à pessoa importante para nós, que fique atenta; uma parte da testa a quem tiver um desafio pela frente, para que seja inteligente na resposta...

Mas de certo que em Mandarim não existe a palavra “negociar”...

Ao som da música que canta «Chié-chié Mao»(obrigado Mao), olhamos no poster da parede, daqueles em que a água até mexe, a paisagem exótica de uma praia de areia branca, mar turquesa e sombras de coqueiros... e neste mesmo momento, com um brinde de aguardente de lagarto baijiu, decidimos seguir para Sul! Moçambique, aqui vamos nós! Foi a Estrada que decidiu, não sabemos ainda como, mas vamos!

No nosso 67º dia de viagem engolimos o orgulho,acendemos os insensos a Buda e fazemos as nossas preces, preparamo-nos para Fu - O Retorno,voltamos para o Cazaquistão. Repetimos o desfile de chegada; carregados, de Ra à trela, fazemos a pé os três quilómetros até à fronteira.

Na alfândega mais uma vez descarregamos e carregamos toda a nossa carga, são verificados documentos e finalmente têm oportunidade de admirar o passaporte do Ra, que faz sucesso. Pagamos dois euros e meio por dia, de estacionamento do jipe! e ainda solenemente declaram que é este preço porque gostam de Portugal... para outros é oito euros. Quais outros? Que outros veículos estão à guarda deste fronteira?

A alfândega fecha para almoço, aguardamos. «A lei aqui é muito rígida» mas durante o intervalo de almoço as filas de cazaques e chinesas, carregadas de infinitos caixotes com todo o tipo de mercadorias, aproveitam a alfândega deserta de oficiais. Vemos caixas de papelão a deslizar pelo chão branco, caixotes com pés, sacos de duas cabeças, mandados parar por oficias zangados, de volta ao trabalho depois de uma tigela de arroz chau-chau.

«Há três meios de ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.» Confúcio


Precipitados na estepe

O acidente.

Já se questionaram sobre o que vão dizer uns momentos antes da morte?

Eu sei, vou dizer:

Não! Não! Não! NAAAAAÃOOOO!



No nosso 45º dia de viagem viajamos a 100km/h na estrada entre Astana e Almati. A única estrada no Cazaquistão que é digna desse nome. Aproveitamos o tapete plano e limpo e descansamos os olhos fartos de ver buracos, os pés doridos de travagens súbitas, a alma sofrida com a incerteza do Norte.

Está frio. Anoitece. De repente, vindo sabe-se lá de que conto tártaro ou tétrico, aparece-nos, à frente do jipe um homem de braços no ar, a acenar. Telmo grita a meu lado: «Cuidado!»

O pânico trava a fundo, a inconsciência vira o volante todo para a esquerda, o jipe entra completamente na contra-mão, e à visão das luzes dos que aí circulam uma guinada desesperada para a direita faz o resto, perco completamente o controle das várias toneladas de Toyota. Voamos, cuspidos para fora da estrada.

Do alcatrão para a estepe há um ribanceira que serve de rampa para um salto prodigioso. Durante o voo o jipe balouça para a esquerda e para a direita indeciso sobre o lado por onde prefere capotar. Prevejo o embate e em estranha premonição sinto que vou bater com a cabeça e o ombro esquerdo no vidro da janela. E que vai doer.

Dizemos as que parecem ser as nossas últimas palavras e embora deseje ouvir declarações de amor só oiço:

«NÃO! m****! Partiste o jipe todo!»

«Eu?...», penso. As minhas mãos ainda agarram com força o volante, não me dói nada, o jipe não capotou, aterrou na estepe na latitude 50º07’N e longitude 72º54’E, depois de um salto de 20 metros, não me parece assim tão mal.

Abro a porta e encontro o homem que não matei, o cheiro a vodka chega muito antes dele... Eu e Ra estamos em silêncio, Telmo desfaz-se em palavrões e lições de condução e eu desfaço-me finalmente em lágrimas.

Pára um carro, e outro, e outro, todos os pequenos e magros cazaques se preocupam connosco. Ligam o motor, que trabalha, «normali», dizem. Hum... não sei se a semelhança fonética é também semântica mas não me parece que este voo possa deixar algum veículo “normal”.

Os cazaques despem os enormes casacos decorados com peles e forrados de pêlo, insistem para que os vista. Estendem-nos telemóveis para fazermos chamadas. Mas a milhares de quilómetros de casa ligar a quem? Ligamos ao nosso bom amigo entendido em línguas eslavas, parece que vão chamar um reboque. Por esta altura já mais de dez carros pararam e todos querem ajudar. Vou trocando de casacos.

Testo o conforto de versões modernos de shapan,kaptal, shabu, shekpen, ishik... as vestes tradicionais cazaques, conhecidas pela cuidada escolha dos materiais adaptados às condições da vida nómada e exigências do clima.

Finalmente aparece o enorme e ferrujento reboque e, logo a seguir, um carro da polícia. Um dos polícias fala Inglês mas está mais excitado com o facto de conhecer estrangeiros do que preocupado com o acidente. O tártaro embriagado foi afastado dali.

O reboque não tem como descer a ribanceira íngreme. Os cazaques de camuflado a cheirar a carne frita estudam possibilidades. Conseguem finalmente arrastar o jipe até à estrada, amolgando jantes e pára-choques. O jipe funciona! Anda. Mas perdemos dois pneus e não há onde comprar novos. Oferecem-nos uma boleia até à “cidade” para remendar estes. Remendar!? Bom, seja.

E agora, como fazemos? Vamos os três? Têm medo do Ra e o jipe não pode ficar aqui. Telmo vai, eu fico, com Ra, medo e escolta policial.

A 71 quilómetros dali, numa garagem no meio da sucata, os pneus são remendados numa velha banheira de esmalte.

Daí a uma hora pagamos o serviço e avançamos, lentamente. O jipe dança nos eixos. Trocamos poucas palavras.

Junto a uma bomba de combustível um néonvermelho anuncia um motel. Tem mau aspecto mas estamos cansados, sujos, gelados, zangados e esfomeados. Entramos.

Em cima do balcão um pequeno bibelot, um pastor alemão, segura nos dentes as boas vindas, “welcome”. A recepcionista sorri e mostra-nos fotografias (!) da lyux. Sim, já sabemos que em países de “alma eslava” é só luxos! Aceitam o Ra, aceitamos o quarto sem olhar.

Esta que se assemelha levemente à minha mãe, adivinha-nos os desejos e propõe-nos servir o jantar no quarto. Eu quero colo mas peço carnes fumadas, arroz e cerveja.

Subimos para a suite. A porta está aberta, convidativa e o quarto está quente. Nas paredes amarelas sobressai um arranjo de flores artificiais. A luz suave e colorida envolve uma cama enorme decorada de almofadas de seda dourada. Na pequena sala com sofás e tapetes fofos a televisão de écrã plano mostra um canal oficial cazaque, onde meninas de longas tranças pretas e meninos de bigode tentam representar. Há chinelos de plástico e dois roupões floridos, de seda barata, dos nossos tamanhos. O conforto é relativo. Ra instala-se no sofá grande.

Neva. No dia seguinte os pneus do jipe estão em baixo. Igor, o dono do motel, compadece-se dos dois estrangeiros mal vestidos para o frio e sem jeito para mecânica, em luta com macacos e pneus sem ar, e põe os empregados a ajudar-nos. Vamos directos aoToyota Service de Karaganda onde eu e Ra esperamos ao frio na rua: «Tem frio? É assim, é o Cazaquistão!», sorrio sem vontade. É difícil convencê-los a ver o jipe «normali, normali» vão dizendo. «Normali não! o jipe voou assim! E depois aterrou assim!», vamos gesticulando. Por fim Vladimir acede, mas vai avisando que embora seja mecânico da Toyota não estamos na Europa, os meios são poucos. E tudo lhe parece estar “normali”!

- «Aqui não há pneus novos»

- «Não há?!»

- «Destes nem na capital»

Na sucata escolhemos os que têm melhor aspecto.

Oleg, o dono da oficina nem acredita que tem dois clientes estangeiros, somos os primeiros que por aqui aparecem. Tira-nos fotografias, oferece serviços gratuitos, limpezas ao jipe, chás e biscoitos para Ra.

À noite em comemorações com caviar, foi a vez de Telmo ser derrotado pelo vodka. Felizmente não foi para a estrada...

Seguimos para Almati pela estrada coberta de fina camada de neve, escorregadia.

O monstro da Ásia central



Na Ásia Central vive um monstro.

Enorme. Côr de máquina abandonada à chuva. De pele escamosa, esburacada. Pêlos ruços, eriçados, cobrem todo o seu corpo. Tem sangue espesso, oleoso. Dos seus poros saem chamas, gazes e cheiros mortais.

O seu corpo é ossudo, seco, duro. Os ossos expostos em mil fracturas. Ossos que não compõem um esqueleto. As suas veias estão puxadas à superfície, como tubos quentes. O monstro tem os olhos vazados, os tímpanos furados, as cordas vocais cortadas. Da sua baba formam-se lagos, mares. Mortos, infectos, radioactivos.

O monstro está adormecido. Sofre de febres, temperaturas positivas e negativas em suores e alucinações.

Visitamos o monstro.

Percorremos a sua coluna de rectas mortais, subimos e descemos cada vértebra sinuosa. Como um parasita.

Na Ásia Central vive um monstro chamado Cazaquistão. Pertence à extinta espécie soviética. Votado ao abandono, afastou-se como um pária e perdeu-se, cego de doenças e sonhos de independência.

Nós não sabíamos.

Para nós o Cazaquistão era apenas um enorme “istão”, daqueles que no mapa vizinham a ainda maior “mãe” Rússia. Kirguistão, Turqmenistão, Uzbequistão...

Para o nosso “Oráculo”, Olena, a funcionária russa da agência de viagens em Lisboa, é uma enorme aldeia.

Para outros é só um país riquíssimo, no seu subsolo, ao que parece sem qualquer exagero, é possível encontrar todos os elementos que compõem a tabela periódica do químico russo Dmitri Ivanovitch Mendeleev.

Outros consideram-no uma piada digna de filme de Hollywood.

A Rússia é o maior país do mundo. Nada ao pé desta mancha parece grande. Mas os seus filhos desenham-se, longos, presentes, a seu lado.

No Google Earth o Cazaquistão é apenas uma mancha branca. Na realidade é um buraco negro.

Não sabia quase nada sobre este país. Não sabia.

Na nossa ignorância escolhemos atravessar o Cazaquistão uma vez, para alcançarmos a China, evitando as máfias do Extremo Oriente russo.

Mas para nosso desespero, o destino de viajantes obrigou-nos a atravessá-lo de novo, da China para a Rússia, em busca do mar Negro que banha a Turquia.

Não sabíamos que só sob maldição se visita este monstro. E que só no mesmo estado, surdo, cego e mudo, se pode sair dele incólume.

Consultando o diário de bordo, entrámos na estepe cazaque no dia 11 de Outubro de 2006 e chegámos à fronteira chinesa oito dias depois. Voltámos a atravessar o país entre 6 e 11 de Novembro. Os factos estão assim registados, mas não foi assim.

Na verdade, perdemos a noção de tempo e de espaço mal entramos no Cazaquistão. A estepe interminável transporta-nos para uma dimensão irreal onde os dias não passam e as distâncias não se vencem.

Passada a fronteira anoitece. A lua ilumina timidamente a estrada que tomamos, ou melhor, que tentamos tomar.

Estradas. Quem viaja por terra precisa de estradas. Penso que não haverá país com melhores condições para estradas. Plano e rico em petróleo. Mas que sei eu de engenharia e política?

A estrada é alcatroada. Ou melhor será dizer que foialcatroada. É um longo e recto tapete de buracos, tão grandes que parecem ter sido feitos com pá e picareta, o jipe inteiro caberia neles.

Não se vê uma placa de sinalização.

Esta estrada destruída impede-nos de avançar. Aos dias sucedem-se as noites e só a lua ilumina o nosso desnorte. Sem cama, sem comida, perdidos.

Seguimos sem dormir, olhos forçados tentam ler a estepe e o complicado mapa. Nada senão enormes rectas que parecem não ir dar a lado nenhum. Enganamo-nos no caminho. Ou é o monstro que se rebola no sono e realinha os ossos que percorremos?

Avançamos lentamente, muito lentamente. Não parece que atravessamos um país. Não tem marcas de país. A sensação de mundo a perder de vista, a visão da descomunal paisagem plana, seca, estéril é impressionante.

Sinto que passámos anos perdidos nesta estepe. Que na estepe perdi a fala, ganhei os medos. Os saltos altos e as roupas femininas fecharam-se nas malas perfumadas. Transformo-me como uma Górgona enfeitiçada. Escondo a pele seca e as serpentes dos cabelos em turbantes empoeirados.

O pó seca os sorrisos e fixa o olhar rasgado de espanto, de prostração, de medo.

Silêncio, desolação.

Há muitos quilómetros que observamos automóveis queimados na berma da estrada. Velhos Lada são aqui deixados como altares em homenagem aos seus ocupantes perecidos no desigual combate com as armadilhas da estrada. São túmulos na estepe que transformam a nossa viagem num triste cortejo fúnebre.

Dizem-nos que neste país não há doenças como o cancro ou a sida, porque os médicos estão proibidos de as diagnosticar. Que não há jornalismo porque a informação é controladíssima pelo governo. Que há famílias, aldeias inteiras refugiadas não sei de que guerras a viver em vagões de comboios abandonados algures na estepe estéril. Que há fome, aldeias onde os pescadores de esturjão são obrigados a roubar peixe para alimentar as famílias. Que a riqueza de petróleo é tal que não é necessário perfurar poços, a terra transpira-o e os seus vapores provocam extensas áreas de mil fogueiras de pura combustão. Que há febres e pestes que não existem na Europa desde a época medieval. Que numa ilha do Mar Cáspio se queimam corpos para impedir o contágio de não se sabe que epidemias. Que o despovoado Mar Cáspio morre. Que há minas de urânio a céu aberto e campos de lixo nuclear abandonados onde há o suficiente para fabricar dezenas de bombas...

Terra dos cazaques. O significado da palavracazaque é incerto, independente/ rebelde/ errante/ bravo/ livre. Irónico, não é?

Cazaquistão é um país monstruoso. De tamanho, de desolação, de abandono.

Estepe a perder de vista. Ao longe brilha a chama dos poços de petróleo.


Almas eslavas



Na Rússia não visitamos S. Petersburgo ou Moscovo, a realidade russa encontra-se aqui, na província. Não é melhor, é corrupta, decadente e miserável, mas é real.

Percorremos verstas e verstas entre izbas de madeira. Nos varandins, janelas e portas as esculturas de animais rendilhados tomam aos nossos olhos formas assustadoras. Nas pequenas casas demujiques (camponeses), aquecidas pelo grande forno de barro, somos recebidos no krasnyi ugol, um cantinho decorado com ícones dourados, linhos bordados e uma pequena mesa com velas e fotografias de família. Curvamo-nos perante o pequeno altar, Olga, a menina russa serve-nos chá quente do samovar prateado, não parece simpática, ou talvez sorria por dentro, mas não sabemos de que tratamento se trata, tradicionalmente a honra de partilhar este espaço é dada às visitas, ou aos defuntos.

Os homens russos, formais, de fato completo, lembram todos Tchitchikov que vem da grande cidade para comprar almas mortas.

As cidades russas são grandes e caóticas, na entrada a fila de izbas contrasta com os prédios altos e cinzentos.

Rostov-na-Donu demorou uma hora e trinta a atravessar, aqui os olhos ficam cansados e as mãos nervosas, para onde? Não há placas, ou são impossíveis de ler, e temos de parar em todas os cruzamentos para perguntar às “irmandades” qual a direcção. Vemo-nos rodeados por estas criaturas. Olham-nos, falam entre si, observam o carro, a matrícula, o cão. São a Bratva, a Organizatsiya, a célebre máfia russa!, pensamos. Tentamos fingir-nos turistas e não simples provincianos, servos de gleba propriedade de um senhor, à mercê da burla de comprar servos mortos para os hipotecar e obter empréstimos (a visão satírica de Gogol, em Almas Mortas, da Rússia anterior à abolição da servidão).

Perguntamos

«- Pryama? Na pravna? Na leva?» (frente? direita? esquerda?) e tentamos perceber a resposta.

Como Gogol, rimos para não chorar, apiedamo-nos das almas penadas. A Rússia é dificil. É difícil porque é... a Rússia. É enorme e agreste. Somos descriminados pelo nosso aspecto, por não falarmos Russo. Por sermos estrangeiros somos sempre tratados como intrusos. Nas ruas, no hotel, no restaurante, nos check point nas estradas, sentimos uma animosidade latente, os olhos claros, as peles avermelhadas e as cabeças ruças ardem de diabólico vermelho.

A vigilância policial é constante, e quaisquer dez quilómetros de excesso de velocidade bastam para que nos mandem parar e peçam dinheiro. A conversa do milicia só termina depois de sermos convidados a entrar no carro-polícia para pagar:

«- Dez dólares.

- Dez dólares!!?

- Não, não, rublos, dez rublos.»

Aproximadamente trinta cêntimos de corrupção, portanto.

Conselhos para viajar na Rússia? Os mesmos do pai de Pavlucha

 

«Vê lá (...) se não fazes asneiras (...) sobretudo, usa de lisonja (...) Se agradares aos superiores, mesmo que (...) Deus te não tenha dado grandes talentos, andarás para a frente e ultrapassarás os outros todos. (...) caso faças alguma amizade, que seja com os mais ricos (...) Não presenteies ninguém (...) poupa o teu copeque: é essa a coisa mais segura no mundo. O colega ou o amigo vão aldrabar-te e serão os primeiros a trair-te na desgraça, mas já o copeque te será sempre fiel em todos os contratempos.»

 

Na longa recta que atravessa o país passamos as estátuas de homenagem ao Socialismo, enormes, negras, imóveis, plantadas na planície seca.

O Intourist, em Stavropol, pertence à cadeia de bons hotéis criada nos dias da União Soviética. Entramos no lobby de chão de mármore e lustre de cristal, promete. Mas não cumpre, a este truque já estamos habituados, depois de subirmos as escadas pelos corredores escuros encontramos os quartos negros, sem banhos, sem água quente. Nas pequenas e desconfortáveis camas o áspero cobertor não chega para tapar os pés e estou convencida de que é o dormir com os pés de fora que explica a alma eslava.

Compramos uns minutos de sauna privativa. Parece um bunker, descemos no elevador até à cave, e depois um par de lances de escadas, atravessamos longos corredores, seguindo a massagista grande e sisuda que fecha portas atrás de nós. Pelo caminho passamos por sucessivas salas com cheiro a fumo, sofás de cabedal e mesas baixas de chá, de jogo, de massagem, de bebidas espirituosas. Finalmente vemos as toalhas e roupões brancos na sala de tecto espelhado, com uma pequena piscina de água turva e uma quentíssima cabine de madeira. Lá dentro o calor é insuportável, queima, somos cozinhados?

A alma eslava da recepcionista do hotel não gostou da presença alemã do nosso cão, que teve de ficar a dormir no jipe. A imprevisibilidade da viagem é para ele uma tortura, sozinho e triste, recusa-se a comer. Já aprendi a dizer àgua em russo, vada, mas não a evitar as garrafas de água gaseificada, as mais comuns. Ra olha para mim, inclina a cabeça, levanta a pata e engelha o nariz agredido pelas bolhinhas de água. Lamenta-se, tem saudades da água lusa, sem espinhos.

Jantamos “ouro negro” e vodka. A culinária russa é desinteressante, mas o caviar é delicioso, verdadeiro caviar de esturjão a seis euros a dose. Aproveitamos, quando poderemos ter outra oportunidade? Ainda não sabíamos que voltaríamos à Rússia em breve, muito breve.

A sala de jantar, enorme, tem no tecto uma antiquada bola de espelhos, nas mesas grupos de rapazes eslavos olham-me. Algum tempo depois são levados em braços, ou arrastados pelo chão, encharcados de vodka.

Nesta parte do país mantém-se um hábito medieval, a entrada das cidades é controlada num check point. Todos os carros têm de parar, somos obrigados a sair, subir até ao primeiro andar da estrutura de madeira e fazer o possível por sobreviver e seguir viagem. Mostramos documentos, vistos, ensaiamos o ni panymaya (não compreendo) em resposta aos pedidos de dinheiro.

Pela estrada russa vemos passarinhos, ou melhor, bandos de corvos devoram carcaças de cães atropelados.

Como Gogol temos medo e vemos diabos por todo o lado, todas as pessoas nos parecem diabólicas...

A maezinha Rússia é muito grande


Em Portugal sonhava em viajar na Rússia. Sonhava com as planícies e florestas dos filmes de Sokurov. As histórias de amor trágico de Mikalkov e Tarkovski. O erotismo de Pushkin. O sonho de Nina n’ A Gaivota, a propriedade d’ O Ginjal e o charme decadente de Tio Vânia.

Em Portugal interpretava Irina d’ As três Irmãs e sonhava com tardes frias ao calor do samovar, com serões de paciências, mimos da aia Anfisa e o cortejamento de militares. Sonhava com Moscovo, de olhos em alvo, em ingénuo efeito teatral.

 

No nosso 38º dia de viagem chegamos à muito temida fronteira da Rússia, em Kholodnaya.

Dizem-nos que um grupo de jornalistas portugueses ali demorou cinco horas para entrar. Nós demorámos dez, dez horas!

No controlo de passaportes, primeiro passo fronteiriço, o oficial de expressão fechada mantém os olhos baixos. Carimba vistos e anota em letra miudinha, sabe-se lá o quê, num dos inúmeros livros que forram as paredes. Entre dentes diz-nos que a Rússia ganhou a Portugal em futebol.

O veterinário de fronteira carimba três vezes o documento do Ra. O Ra tem chip, passaporte, licenças, análises clínicas, atestados... e um certificado internacional que diz em letras gordas «Para a Federação Russa». Pois diz, mas eu entreguei esse mais tarde, no Sudão, aqui dei-lhes outro qualquer... enganei-me. São tantos papéis.

Mas como se tornou óbvio eu não leio Russo e eles não lêm Português, o papel bem podia ser dasPáginas Amarelas que dava no mesmo.

Depois foi o seguro para o jipe. Na casinha a Sra. Antipática não encontra no Documento Único Europeu o número do motor, com ar grave envia-nos para o número «12». Atravessamos a fria fronteira, e eu que só imagino isto coberto de neve tipo telediscoNikita, de Elton Jonh, até uma outra casinha. Lá dentro explicamos a situação, ou seja estendemos o papel que a Sra. Antipática nos entregou.

Depois de algum tempo a viajar em países onde não percebemos a língua e não conseguimos sequer ler habituamo-nos à sensação de analfabetismo e já incomoda menos pensar, aliás, saber, que a mensagem não passa do emissor para o receptor sem ruído, um ruído ensurdecedor. Não importa, a língua não é tudo.

Temos direito a uma olhadela no motor, a dois ou três carimbos e a uma factura de 60 euros para o seguro do nosso jipe.

Na alfândega tememos a inspecção à carga, levamos tanta que tudo o que se relacione com ela só pode ser doloroso. Abrimos a mala, abrem dois ou três sacos, fazem algumas perguntas. Passaram até agora três horas. Nada mau, estamos quase despachados, quase mesmo, quando o oficial faz a pergunta fatal

«- Têm armas?

- ...»

Sabemos da rigidez da lei russa. É uma pergunta directa, nós trazemos connosco duas pistolas de alarme, de teatro... Não sei bem para quê, nem sequer sabemos usar uma arma mas achamos que mal não fazem.

«- Temos estas, são de alarme... Percebe?... São a fingir...»

Os olhos do oficial, que espreitam por baixo do enorme gorro de pêlo, não deixam adivinhar boas notícias, e desaparece numa das casinhas. Esperamos no jipe, como crianças de castigo.

Duas horas depois dizem-nos que as vão confiscar.

Três horas depois redigem um processo, parecia o do Kafka.

Passamos as seguintes duas horas em entrevista, a responder a um interrogatório em Russo. Mas nós não falamos Russo, o bom amigo Manuel intercede por nós, horas ao telefone a tentar inventar razões russas para as nossas “armas” portuguesas.

Somos obrigados a assinar um documento, em Russo. Alegamos que não tem valor um documento que assinamos numa língua que desconhecemos. Na Europa. Mas como é claro já não estamos na Europa.

Voltamos para o jipe. O oficial “escolta-nos” até um hotel em Taganrog.

Nesta cidade nasceu Anton Tchéckov, em 1860, e aqui foi escrita a sua primeira peça Platonov.

O nosso hotel é tipicamente russo. Grande e mau.

À questão da segurança do jipe fomos obrigados a responder deixando o Ra a dormir lá dentro. Para jantar indicam-nos o night club na esquina. Tentamos. Na entrada três seguranças, encorpados, vestidos de preto, de cabelo rapado e com uma ligadura branca na mão direita, fecham a passagem. Parece-me que dizem que o consumo é obrigatório. Não há problema, nós queremos comer.

Hum... parece-me perceber para que serve a ligadura. Prefiro não ter a certeza. Saímos.

Encontramos um pequeno supermercado e de guiaLonely Planet na mão ensaiamos

khleb, masla, ikra, piva (pão, manteiga, caviar, cerveja).

No desagradável quarto do hotel jantamos uma deliciosa ceia de delicatessen russas.

Passamos a noite a verificar o jipe pela janela suja do corredor, e a manhã seguinte a limpar o vomitado do Ra no banco de trás do jipe.

 

Pelas placas que vemos já deu para perceber que ao mapa em Inglês, essencial para podermos perguntar a direcção das cidades, temos de acrescentar o mapa em cirílico para podermos tentar ler.

Comprar um mapa numa livraria (knizni magazin) não parece à partida uma coisa difícil. Mas é. Eu pareço russa, o suficiente para que as pessoas na ruame peçam informações mas as tentativas para me fazer entender saem frustradas.

É incrível o que a publicidade, que praticamente não há aqui, faz pelo nosso sentido de orientação numa cidade. Antes de encontrarmos o mapa entramos em correios, cafés, num jardim de infância e numa repartição de finanças.

Por fim lá conseguimos comprar, dois mapas, um deles em livro encadernado. O país é grande, demasiado grande.

 

«A sua dor vai passar. A vida é longa, ainda virão coisas boas e coisas ruins, vai acontecer de tudo. A mãezinha Rússia é muito grande!» palavras de personagem num conto de Tchéckov, confortando Lipa, uma jovem camponesa que acaba de perder um filho, assassinado por um parente, e sai vagando pelas estepes.

Romênia vermelha


Se cada país tivesse uma cor; a Roménia seria vermelho vivo. O vermelho das grossas camisolas de lã que usam as crianças, escondidas entre as ervas, empoleiradas nas carroças. O vermelho dos portões das casas baixas e frágeis. o vermelho das mantas que cobrem as garupas dos cavalos. O vermelho do néon nas montras das casas mortuárias: ‘Aberto 24 horas’...

Este é o povo de Roma mais a Oriente no nosso mapa, ‘roms’ perdidos, resistentes, isolados entre eslavos.

Cabelos negros, olhos redondos, pele cigana.

O encanto dos povos nómadas para quem o hoje é importante, o ontem já não existe e o amanhã só o vento conhece.

Movem-se como o sol e a lua. São como as ondas. Estão em toda a parte. Chegam e partem. Desaparecem deixando os traços da sua passagem no eco da música, no relinchar dos cavalos, no riso das mulheres. Não, não são feitos de vento. São os filhos do vento.

Avançamos na estrada lotada de carroças. Carroças dos povos perseguidos, dos que nos lêem o coração no olhar e a sina na palma da mão.

Carroças guiadas por mulheres de rosto marcado, lenços sujos nos cabelos, batas e aventais a vestir a sobreposição de roupa grossa e colorida.

Enquadrada pela janela do jipe, a imagem parece saída de um documentário, ‘Roménia profunda’, que nos vende a televisão.

Paramos na beira da estrada. Alinham-se as casas baixas. Homens bebem água dos poços de pedra. Cavalos pastam e crianças (tantas crianças!) brincam.

O pudor em fotografar pessoas faz-me falhar tanta coisa.

Passam pequenos carros carregadíssimos: móveis, pneus, gansos, tudo atado no tejadilho.

Entramos numa das casas de porta de madeira aberta.

Lá dentro, nas mesas, uma jarra de flores de plástico e uma tigela com açúcar.

Duas raparigas conversam. Entramos e olhos pretos silenciam-se.

Temos fome – não há nada que eu possa apontar nas prateleiras vazias. Por dificuldade de comunicação pedimos Nescafé. Sentamo-nos com os nosso cafés quentes e lentos.

Elas voltam à conversa sussurrada, o sítio é sombrio, as expressões tristes, os olhares abandonados.

Olho-as. Lembro-me das conversas com as minhas amigas de adolescência no interior do nosso país. De quando sonhávamos com o mundo, daquele lugar que sentíamos ser para nós tão pequenino.

A entrada de Bucareste é um amontoado de lixo, obras, estradas fechadas, buracos, canos, passeios enlameados, linhas de eléctrico destruídas.

No centro da cidade, a sumptuosa ex-residência oficial de Ceausescu domina a paisagem.

A nossa presença provoca silêncios e olhares severos.

Seguimos viagem, país agreste dentro, até Bacau.

Passamos a magnífica zona montanhosa. Estrada sinuosa, castelos e palácios belíssimos, cemitérios cinematográficos, penhascos e montanhas pontiagudas, como dentes... Bancas de beira de estrada com alhos e cruzes... Para os turistas, espero!

Transilvânia.

Os vidros do jipe embaciam teimosamente, sinto falta de ar, aconchego o lenço no pescoço...

Vlad, o cavaleiro da Ordem do Dragão, o filho de Dracul, Vampiro, o imortal, nasceu aqui em 1431.

O castelo de Bran, da torre do qual a esposa de Vlad mergulhou na eternidade do rio Arges, está agora transformado em museu.

O corpo de Drácula foi decapitado pelos turcos, e a cabeça enviada para Istambul, onde o Sultão a expôs numa estaca como prova de que ‘O Príncipe Empalador’ estava morto. O corpo foi enterrado em Snagov, uma ilha-mosteiro perto de Bucareste.

Corpo separado da cabeça, como manda a lenda.

Olhamos a paisagem feita de gritos de morcegos.

Receamos as recriações demasiado turísticas, ou demasiado reais! Não paramos para visitar.

Ukrayina, da svidaniya!


Acompanhando o delta do Danúbio chegamos à Ucrânia no nosso 33º dia de viagem, seis mil e seis quilómetros depois de Lisboa. Nesta fronteira espera-nos um enorme portão, e em vez de um corredor de guichets como encontrámos até agora, onde a burocracia se resume a esticar o passaporte, há um complexo de vários blocos de edifícios, e a ameaça de várias fases de carimbos e papeladas.

No portão uma oficial em fato camuflado, cabelo pintado de vermelho e enormes unhas rosa. Acho que sou cumprimentada, em Ucraniano, ensaio a resposta em Inglês. Logo que percebe que não falo a sua língua suspira, estende-me dois cartões amarelos e aponta para o meu passaporte. Entendo que é para preencher, claro, mas não percebo uma palavra, preencher o quê? onde? A oficial não quer saber. Às minhas perguntas insistentes vai dizendo «da svidaniya!» (até à vista). Nós precisamos de ajuda«A fronteira não é fechada a estrangeiros pois não!?» Mesmo que soubesse usar este argumento em Ucraniano a resposta poderia muito bem ser«agora é!»

No controlo de passaportes a oficial tem conjugado com a farda uma mini-saia curtíssima e botas de saltos vertiginosos. É impossível perceber o procedimento para passar esta fronteira, mas ela simpatiza com o Telmo, o que não é necessariamente bom, e leva-o em assédios vários ao oficial, que depois de pedir alguns euros pela “ajuda”, nos arruma de uma só penada com os carimbos para passaporte, jipe e cão. Estamos despachados.

 

Seguimos para Hmelnyckyj.

Na enorme Ucrânia a estrada acompanha os campos cultivados. Campos planos, amarelo palha, como os cabelos das mulheres.

Nas intermináveis rectas a velocidade cruzeiro é uma tentação, mas os limites de velocidade são baixos e o policiamento das estradas cerrado, os carros da milícia escondem-se entre árvores, em desníveis dos campos. Vamos a 100 km/h e somos mandados parar pelo tipo de radar de mão que nos diz que o limite de velocidade é 95.

O polícia é redondo e branco, ponta do nariz vermelha, farda apertada e boné espetado no topo da cabeça loira. Parece um polícia de desenho animado, um desenho animado mal disposto.

Telmo pede-me que aguarde dentro do carro, não tenho nenhuma vontade de fazer o contrário. Oiço-os em pouco Inglês e muito Ucraniano, pedem dinheiro e.ameaçam com apreensão do passaporte. A certa altura o polícia abeira-se do jipe e olha-me nos olhos. Diz que sou russa. Mostramos o comprovativo de que sou portuguesa. Ele insiste que é falso, eu sou russa, ele não é parvo! Grita comigo em Ucraniano, não percebo uma palavra o que mostra bem que ele está enganado, eu não sou russa e ele é parvo. Parvo e mal educado!

Pede 100 dólares pelos nossos cinco km/ h de excesso de velocidade. Telmo finge não perceber nada e telefona para a nossa embaixada em Kiev. Ao telefone, a cara do polícia vai ficando cada vez mais vermelha, não sei se de raiva ou vergonha. Seguimos viagem sem pagar um só hryvnia!

 

Na cidade de Odessa, grande e cinzenta, procuramos sítio para dormir, mas “hotel” não é uma palavra universal... Aprendemos logo que saímos da nossa rua que nada é universal.

Recepcionista muito loira atrás do balcão, nem uma palavra de Inglês, e eu nem uma palavra de Ucraniano, pensará ela. Alugamos o melhor quarto, a lyux, com a condição que aceitem o nosso cão. Venha o luxo! Claro que o conceito, como tudo, é relativo... Dedicamo-nos aos celebrados prazeres eslavos, depois de uma reconfortante sauna, vamos jantar, é preciso descodificar o menu mas em terras com mares de esturjão rapidamente aprendemos a palavra ikra (caviar) e deliciamo-nos com comida da czares a quatro euros!

 

Toda a estrada da Ucrânia está pontilhada de cores. As cores vibrantes das coroas de flores de plástico que assinalam atropelamentos.

 

Paramos para comer, tentando adivinhar uma casa de pasto entre as muitas pequenas khata, casas feitas de madeira, pedra e barro, com portões e muros azuis e rosa, que se alinham à beira da estrada. Lá dentro as paredes são pintadas de ocres e vermelhos fortes, com enormes flores e animais, nas janelas há cortinados de folhos, em cetim azul e nas mesas toalhas verdes, com bordados. Na prateleira de madeira envernizada, atrás do balcão, estão dispostos pêssanka, ovos pintados à mão que na Ucrânia tradicional simbolizam a vida, a saúde, a prosperidade, esquecidos da última Páscoa, talvez. A empregada ruça vem tentar perguntar o que queremos, nós tentamos responder mas «ikra? Niet»a comunicação não é fácil. Faço gestos, ela ri-se, de dentro das golas de pêlo,

«Borsch?»

Seja. Recebo uma tigela com a sopa vermelha de beterraba, com carne, gordura e batatas...

 

«Ivan Iákovlevitch vestiu, por respeito das conveniências, a casaca por cima da camisa e, sentando-se à mesa, serviu-se de sal, preparou duas cebolas, pegou na faca e, com uma expressão eloquente na cara, pôs-se a cortar o pão. Ao abri-lo ao meio, olhou para o miolo e, surpresa sua, viu algo esbranquiçado. Escavou cuidadosamente com a faca e apalpou com um dedo. "É duro - disse para si. - Que poderá ser?". Enfiou os dedos e tirou - um nariz!...Caiu das nuvens; esfregou os olhos e começou a apalpar: nariz, nariz de certeza! Ainda por cima de alguém conhecido, parecia-lhe. Desenhou-se o terror no rosto de Ivan Iákovlevitch.»(Nikolai Gogol)

 

Procuramos hotel em Marioupol. Na noite anterior dormimos num motel de estrada, medonho; escuro, sujo, “lixo usado” debaixo da cama, água fria, lençóis que já foram usados...

Na zona rica, em frente ao mar, Telmo começa a busca. O primeiro está cheio. O segundo também. Dizem-nos o mesmo nos dois seguintes. Aí desconfiamos de que alguma coisa está mal. Olho para a nossa roupa, já viu melhores dias. Saquei dos sapatos de salto alto e soltei os cabelos. A senhora loiríssima na recepção usa por cima do decote sexy um fato em tecido tigresa. Arranhei:

«Dobry den’. Prastite, nommer?»

«Da.»

Sim. Pedi um quarto duplo. Fiz o check in e fui buscar o Ra e o Telmo. À sua passagem a recepcionista corou.

 

Amanhã seguimos para a fronteira: Ukrayina, da svidaniya!