Monday, March 23, 2015

Quando, na Turquia

Quando dois gatos escavaram uma nascente e uma rã voou com asas, pulgas amestradas caíram, e as pedras saltaram sobre elas. O galo foi um imã, a vaca um barbeiro, o javali dançou; tudo isso aconteceu quando o Padishah era velho.


Quando Massis era “A Mãe do Mundo” o dilúvio empurrava Noé pelo Negro Mar, a sua Arca atracou em Ararat. Quando os homens a procuraram subindo o monte foram abatidos pelos curdos. Quando as neves em Novembro cobrem o Monte Ararat, quando o camelo era mensageiro, quando os castores mudavam o curso dos rios, viajamos para cima e para baixo nas rotas terrestres, até à Turquia.


Quando em Esmirna nasceu Homero. Quando os poetas falavam no teatro de Éfeso. Quando Paulo e João pregavam a palavra de Deus. Quando Maria foi reconhecida mãe de Cristo. Quando em Tróia aprenderam a desconfiar dos gregos e dos seus presentes, Eneias partia para os braços de Dido.

Quando as oliveiras davam sombra viajamos nós para cima e para baixo nas rotas da Turquia.


Quando os gregos moravam no cálido vale de Hierápolis. Quando os homens se banhavam nas águas termais das piscinas do salute per aquum e as cascatas de água calcária na colina formavam bacias gigantescas de águas azuis ou verdes. Quando chamavam à colina branca Pamukkale (castelo de algodão), escorregamos na pedra polida pelas águas mornas.




Quando subimos as escarpas de Denizli, em testes às potentes mudanças redutoras do nosso todo o terreno, no seu topo, em construções trogloditas encontramos os anciãos Alevi, Rafat e Ally. «Nós somos três irmãos», diz o mais velho, «o nosso pai morreu há muito tempo e deixou-nos um turbante, um chicote e um tapete de oração. Quem usar o turbante torna-se invisível. Quem se sentar no tapete voa como um pássaro e quem fizer estalar o chicote possui o dom da verdade. Quem deve receber o turbante, o chicote ou o tapete? Esta é uma questão que discutimos continuamente.»


«Quando o primeiro mortal apareceu sobre a terra e os peris rejubilaram sobre o maravilhoso trabalho de Deus, os dews invejaram-no. O pai do mal quis destruir esse trabalho, cuspiu sobre o Primeiro Homem, imaculado, e atingiu-o na região abaixo do estômago. Mas Allah, o todo-misericordioso, rasgou a carne contaminada, atirando-a ao chão. Da marca da carne arrancada surgiu o umbigo. O pedaço de carne, impuro por acção do Maldito, renasceu a partir do pó, e assim, quase em simultâneo com o homem, o cão foi criado. É por isso que Maomé se recusa a tolerar o cão na sua casa.»


Quando para o muçulmano o cão era o seu implacável inimigo procuramos nós hotel na Turquia:

Do you accept dogs?

- Dollars? Yes, no problem.

- No, dogs.

- ...?

- Ão! Ão?

- No, we do not, of course not! Don’t worry about that, we never do!

- No, but we… OK, thank you…


Quando as mulheres escondiam os cabelos e guardavam o sorriso, quando as crianças conduziam o gado, quando o muezzin chamava para a oração entramos nós no Donner Kebab, numa rua de Nevsehir. 


Sou a única mulher na sala com cheiro a cardamomo e carnes guizadas. Depois da refeição o empregado de mesa vem, formal, oferecer água de colónia... a resposta exige alguns momentos de observação dos locais, que a esfregam nas mãos, imitamo-los.


Quando os povos escavavam na pedra ou na rocha as suas casas.

Quando os vulcões Erciyes e Hasamdag entraram em erupção. Quando as variações térmicas da terra fizeram estalar a cobertura das rochas e formaram campos planos de poeira vulcânica, montículos, mesas, montanhas tabulares, canyons. Quando as fadas tocaram com a sua magia as pedras pintando-as de cinza, bege, lilás, dourado. Quando os animais falavam vivia na Turquia um Vizir com duas filhas.

Quando os homens esculpiam igrejas bizantinas nas paredes do vale de Goreme, quando pintavam em frescos serpentes estranguladoras. Quando compramos tapetes em Konya e admiramos nas margens do Bósforo a silhueta recortada dos minaretes que engalanam Istambul, vivia na Turquia um sultão infeliz.


Quando os gregos festejavam o amor com templos e libações foi construída uma cidade em Caria. Quando Afrodite era para os homens o desejo, a beleza, o amor. Quando a terra tremeu trouxe a àgua, em inundações que escureciam o mármore branco das pernas da deusa, ruinaram os seus templos. Afrodisias não mais recuperou. Quando viajamos na Turquia beijamo-nos na entrada principal.


Quando os povos invasores vindos da Ásia Central percorriam as planícies em busca da pilhagem, nas chamadas “planícies de passagem” as cidades são subterrâneas.


Quando nos vendem pedras preciosas falsas e nos oferecem perfumados kahve, café turco, lêem o nosso destino nas borras grossas. Quando mergulhamos pelos túneis labirínticos de Kaymakli ou Derinkuyu conhecemos Aziz.


Quando provamos hummusfelefel, ou baklava, até os heróis dos contos páram para deliciar-se.

O filho Deniz levantou-se:

«Então o Príncipe Hussein esteve aqui e raptou a filha do Sultão! Mas não esperam pela demora, irei apanhá-los aos dois.

Dizendo estas palavras sentou-se, calmamente, bebeu chá e fumou o seu cachimbo de água, depois levantou-se e correu atrás deles.»


Quando a capital da Turquia se chamava âncora, Ancara. Quando foi tomada pelos hititas, frígios, persas, romanos, otomanos, árabes, seljúcidas e mongois.

Quando Istambul era o centro do império otomano, derrotado no final da Grande Guerra. Quando Mustafa andava na escola foi chamado de Kemal (perfeição), quando apadrinhou a nova república chamou-se Ataturk, ou “o pai dos turcos”.

Quando Ataturk foi presidente aboliu o Sultão, o Vizir, o Paxá; promoveu a separação entre a religião e o estado; baniu o Fez (chapéu otomano) e o véu das mulheres; abriu escolas para o ensino da arte; levantou a proibição do álcool.

Quando a região de montanhas nevadas, densas florestas, lagos, pastos, planícies, vales férteis, rios como Tigris e Eufrades era conhecida como a Alta Mesopotâmia. Quando o clima era extremo e as pessoas reservadas.

Quando a Turquia não pertencia à Europa mas as estradas não sabiam, viajamos suavemente, montanha acima, vale abaixo.

Paranóia II


Há na Rússia uma cidade no krai de Krasnodar chamada Sochi.

Aí retidos Telmo e Filipa percorrem as ruelas à procura do porto para perguntar pelo barco que os levaria a Trabson, na Turquia. Era para lá que viajavam. O estado de ânimo de Telmei era sombrio, como sempre acontecia com ele na Rússia.

A viagem tornara-se difícil. As portas da China fecharam-se como uma caixa chinesa, da embaixada do país em Portugal negaram terem deste casal conhecimento e do governo do Vietname responderam com a reserva e cuidado de quem lida com assuntos secretos. Telmei por esta altura já desconfiava de conspiração internacional, tinha a certeza, escondiam-lhe algo, até foi por sugestão da Embaixada de Portugal em Moscovo que foram assim, primeiro enganados, a caminho de Rostov e agora para Sochi. Porquê?

Sochi é uma estância balnear, cosmopolita - dizem-lhes. Mas não parece.

Telmei e Filipenka desconfiam e a Sochi chegam desesperançados. Estacionam os cavalos do Land Cruiser à porta do hotel e à entrada batem na madeira, para afastar as coisas más. Na recepção do enorme hotel Zemushkina as meninas informam, informam que não há barco à três dias porque há tempestade no mar.

Telmei e Filipenka deixam-se cair na napa dos sofás do lobby, em jornais antigos, perdidos nas mesas de vidro, há notícias de um naufrágio. E é aqui que a água do Mar Negro escurece o ar.

No dia seguinte o Ra fica no quarto, os cavalos no parque e Telmei e Filipenka saem a procurar o porto, precisam de ver se não são enganados.

A sala de espera está cheia de pessoas com sacos e malas. Ninguém sabe, mas ainda assim vendem-lhes bilhete para o barco improvável, reservam suite lyuximaginária. De volta ao hotel esperam. Telmei não sabe o que fazer, não consegue ler ou escrever. Desconfia da viagem, das chuvas, do barco... Começa a desconfiar de Filipenka. Os factos e a lógica bem lhe diziam que tudo isto não passava de absurdo, mas era inútil resistir. De manhã, Telmei levantou-se da cama com suores frios na testa. Ao pequeno almoço não come nada e desconfia daquele gosto de Filipenka Joseevna por kefir, a bebida russa com sabor a queijo que ele detestava. E porque comia tantas blinys, as panquecas sensaboronas?

Sochi está coberta de neve, mais uma vez vão saber do barco. Em frente ao hotel um polícia passa, vagaroso, não é por acaso. A sala de espera do porto acumula pessoas, sacos e cheiros. Hanz e Enzo, dois viajantes ao volante de um velho Volvo, esperavam o mesmo barco, e pensavam seguir pela Geórgia, mas, dizia-se, «lá não é difícil entrar, mas é impossível sair». Pelo vidro embaciado Telmei olha dois polícias na rua, porque estão tão calados? Passava dias torturantes, se os lúgubres pensamentos o não largavam durante horas, tal significava que há neles um grão de verdade. Estas pessoas para nos culpar de algo e nos condenar a trabalhos forçados só precisam de uma coisa: tempo. É o tempo que permanecem em Sochi que assusta Telmei.

À saída do porto os polícias interpelam-nos:

- Passport! – de mão trémula entregam-nos, os polícias folheiam-nos,

Where did you sleep last night? – perguntam a Filipenka. Telmei estremece, Filipenka responde apoiada no “Russo básico” da Lonely Planet

Prastite, Ya ni gavaryu pa ruski, ya transit Turquia. Transit! Transit? - Telmei agora tem a certeza, engana-o, é russa! Filipenka explica que disse apenas que não falava Russo, estava em trânsito e ele que fosse chatear outro! Habitualmente o argumento funciona, limita o assédio policial e envia-os, neste caso virtualmente, para outro país. O que se passava é que no imigration card amarelo, que receberam na entrada do país e ao qual Telmei nunca deu atenção há um espaço para os carimbos dos hotéis, para controle policial (!), é só isso. Foi Telmei que fez o check in no hotel, Filipenka não tem carimbo. Parece lógico, claro, rotina, mas Telmei duvida.

Os dias passam, não há barco que se aventure a atracar, quanto mais a zarpar. Telmei telefona de dia e às vezes à noite, nas horas de insónia, mas Ludmila, a funcionária do porto desmente a clemência das marés. No hotel Zemushkina as meninas da recepção informam que vão ser postos na rua porque o visto termina naquele mesmo dia. Telmei Maritrioch estremece, mas não podem sair do país! As Natachas e Ninas não sabem, não querem saber. Que durmam no jipe e arrisquem a vida na esquadra de Sochi, para elas é igual, e já nem lhes dão a chave. Telmei e Filipenka arrastam-se ao gabinete a pedir prorrogação do visto, «Por um dia talvez, se calhar por umas horas, mas é a lei russa...», diz Telmei para si próprio entre ranger e bater de dentes. O processo exige horas em esperas na rua, ao frio. Abrem-lhes a porta mulheres gordas, brancas, empoleiradas em saltos agulha sem capas - cada passo um guincho metálico - maquiavélicas. «I am not a sabaca!», rosna Telmei, enquanto impede com o pé que voltem a fechar a pesada porta, que não são cães!

De volta ao hotel na recepção as meninas informam, informam que são procurados pela polícia!

De Ludmila recebem o telefonema, o barco parte às duas horas, vestem à pressa os casacos e saem de corrida com o cãozinho Ra pela trela curta. Encontram com dificuldade o porto e com mais dificuldade conseguem fazer entrar o jipe na plataforma de embarque. Mas Filipenka não pode entrar, fica atrelada ao cãozinho Ra.

Chove, ensopam as peles do casaco fora de moda que vestiu de manhã. O porteiro de olhos vazados vem chamá-la para que entre, se proteja da chuva, entra, e na primeira oportunidade escapa-se em corrida «corre Ra!, corre!» encontrando Telmei rodeado de oficiais, fiscalizações, carimbos e interrogatórios.

Este é o quinto dia de espera em Sochi, e o barco está pronto, o lyux que os esperava lá dentro? Ouve-se os calhaus de gelo a baterem contra o batelão. Uma humidade, um frio, foram deitar-se. Uma rabanada de vento abriu a porta, para dentro da “izbá” soprou a nevasca.

Paranóia

*na nossa escrita inspirámo-nos nos contos de Tchékov para melhor exprimir o nosso estado de espírito na segunda travessia da Rússia





Telmo viaja na Rússia com a sua jovem mulher Filipa. Levam consigo o cão, claro, não poderiam separar-se do cãozinho. Vêem do Cazaquistão, vão para a Turquia.

Numa manhã de Inverno, com as golas dos casacos levantadas e chapinhando na lama, arrastavam-se Telmei Mariotrich e Filipenka Joseevna pelas filas da fronteira Prigorodnyy. O estado de ânimo de Telmei era sombrio, como sempre acontecia com ele na Rússia.

Numa das ruelas viu formar-se uma fila de pessoas à entrada de um banco, vigiado por quatro guardas. Já antes Telmei Mariotrich vira por várias vezes esta situação, que lhe incitava sempre compaixão e embaraço, mas desta vez o encontro impressionou-o sobremaneira, de um modo estranho. Por alguma razão pareceu-lhe que também a ele podiam agrilhoar, fazendo-o esperar assim, pisando a lama.

Esmagados entre Cazaques e Russos aguardaram na fila de controle de passaportes. É a vez de Janocas (Filipenka Joseevna) entregar o seu e se colocar atrás da linha amarela, em frente ao espelho, a olhar para a câmara. A Sra. atrás do balcão estava treinada para o efeito - detectar passaportes falsos. Observou atentamente a fotografia e o rosto de Janocas, verificava os olhos, o queixo, a testa. Segue-se a vez de Titéu (Telmo Mariotrich), a Sra. olha-o fixamente um momento e faz um telefonema. Telmei e Filipenka estranham, «Porque telefona ela? Para onde?», do interior avança Ivan, jovem de suiças pretas, olha para o passaporte, um tempo, as sobrancelhas espessas de Titéu seguram gotas de suor, por alguma razão transpira, como se fosse culpado e o passaporte fosse de facto falso, não é, mas ele transpira. O oficial acede, avançam.

Na alfândega avançam os Dimitri em uniformes de sarja verde «Declaratzia!», gritam, enquanto estendem o formulário - Telmei e Filipenka já conheciam este papel que obriga a tudo declarar ou a correr o risco de tudo deixar na fronteira de saída do país - preenchem a medo.

Já na rua os três oficiais de alfândega abrem a mala do jipe, entre o confuso Russo o casal percebe a palavra “importação” e puxam do passaporte para, mostrando os vários vistos da viagem, tentar explicar que nada era para importação, mas tudo para uso pessoal. Tendo em conta a quantidade era sempre um pouco difícil para os oficiais acreditar nesta conversa, e foi aqui que conheceram russo, “o gordo”. O plano dele era o habitual: intimidar, ameaçar, conseguir dinheiro. Avança decidido - dente de ouro posto em evidência pelo sorriso falso - para convencer Filipenka, Telmei e os oficiais, que até estavam a facilitar, que a carga tinha toda de ser inspeccionada e pesada. Telmei e Filipenka baixam a cabeça, voltam à sala e tentam demover o oficial doscanner, mas “o gordo” tinha, senão melhor retórica, definitivamente melhor Russo, e repete que segundo a lei têem direito a transportar apenas 35 quilos cada e que por cada quilo a mais têem de pagar quatro euros. Seguem para o jipe, Telmei murmurando entre dentes «Ele pensará que isto é um aeroporto?!». Descarregam todos os sacos e malas empilhando-os no chão enlameado da fronteira. “O gordo” vigiava os bens, aposto que para escolher algum para si, o seu colega fazia passar tudo doscanner para a balança e anotava metodicamente os valores num caderninho. Os sacos eram muitos e havia ainda os documentos do jipe, do cãozinho, câmbios e seguros, “o gordo” tudo acompanhava, ganância a empertigar-lhe os ombros largos. Tanto insistiu que conseguiu cansar os outros oficiais e escondeu o dente brilhante na linha seca dos lábios, obrigado a deixar partir o casal sem mais custos ou demoras.

Telmei e Filipenka seguem com rota marcada para Rostov para aí tomar o barco para a Turquia.

Passam as florestas de árvores finas e brancas.

Procuram quarto nos hotéis de estrada. Albergues sujos, com mau cheiro, camaratas partilhadas, sem casa de banho ou janela, quartos de chão plastificado, camas sem lençóis.

Oito graus negativos, passam a noite no jipe. Não visitam Samara, Saratov ou Volvogrado. A 300 quilómetros de Rostov, quando pela centésima vez telefonam para a Embaixada portuguesa na Rússia a pedir informações sobre o ferry que os levará à Turquia, depois de muita insistência nos pormenores percebem que não, não é em Rostov que podem tomar o ferry, mas em Sochi...

O jipe abranda em desalentado passo, encosta na berma da estrada, olham o visto de trânsito prestes a expirar «Mais 400 quilómetros de desvio para Sochi?», avançam em silêncio.

Numa curva da estrada, entre barracas de lata encontram um gaztinitza (hotel), entram. Seguem a loira pela escada em caracol. Um grupo de pessoas embriagadas corre a fazer festas a Ra, o cãozinho reage, desconfiado e nervoso. No quarto batem à porta, uma das russas traz para Ra uma mão cheia de cubos de açucar (eventualmente confundindo-o com um cavalo). Quer entrar, precisa de estar agarrada às paredes para não cair no chão, o que ainda assim acontece algumas vezes. Filipenka tenta educadamente mantê-la do lado de fora. Minutos mais tarde a mesma mulher volta, despida, enrolada numa toalha turca. Vem acompanhada por um homem mais velho, gordo, em camisola interior de alças, boxers e ligas de meias até ao joelho. O par é grotesco e a situação constrangedora. Janocas consegue com sucesso fechar a porta, à chave. Na manhã seguinte o casal ressacado serve-lhes o pequeno almoço de kefir e blinnys.

Seguem viagem, param para jantar numa banca de estrada, em linha com as barracas de chapa metálica. Entram na sala de paredes azuis, aquecida por feios tubos de gás. Filipenka tenta pedir algo para comerem mas fazem cara feia às palavras que ensaia na língua eslava. Desesperam. É o dono do local, de olhos e cabelos escuros, emigrado da Geórgia, que lhes dá as boas vindas, convida a sentar, lhes grelha deliciosa carne de vaca e serve cerveja e Nescafé.

Seguem viagem, estado de ânimo sombrio, como sempre acontecia com eles na Rússia.

O lobo cinzento



Lendas xamânicas vaticinam que um lobo cinzento virá devorar toda a Terra.

Nos lagos da Ásia Central reverberam os sons ritmados do cavalo de Temudjin na sua campanha contra a tribo Merkit. Podemos ouvir a sua voz cantando Boerte, a noiva raptada: "Ao anoitecer, não te encontrei, porém na minha alma, ecoa o teu canto. O meu coração é uma luz solitária na margem. Ah, bela amada, vou esperar-te toda a noite.". Podemos ouvir os suspiros lascivos do seu reencontro.

No coração do império do grande líder mongol, nas abandonadas margens do lago Balkash procuramos um sítio para dormir, um néon vermelho brilha “777”, vamos ver. O hotel foi remodelado à pouco, em paredes de contraplacado há pinturas berrantes e altos relevos, de esferovite! É indescritível. Mas nem pensamos duas vezes, desde que aceite o Ra... O jovem cazaque da recepção não quer aceitar, mas perante a oferta de mais uns tengs cede a ignorar que Ra entre pela porta dos fundos. Mas a porta é uma escada de incêndio, feita de grade larga, as patas de Ra enfiam-se nos degraus. Gane, não quer subir. Telmo sobe os dois andares com os 50 quilos de cão ao colo. E no quarto somos obrigados a ignorar o frio, os lençóis usados, as baratas, a banheira sem água quente, as caganitas de rato debaixo da cama. E ao jantar ignorar o cheiro da cozinha, o pegajoso das mesas, a cor surrada da loiça de plástico, o sabor da comida. O jipe fica guardado no armazém das traseiras, de manhã, enquanto carregamos a mala e passeamos Ra - sob o olhar de camionistas cazaques, em toalhas, vindos da sauna – invade-nos o cheiro de peles de carneiros acabados de esfolar que secam no exterior do hotel. O recepcionista vem despedir-se de nós, em blazer enodoado, deseja-nos sorte, acena sorrindo. Seguimos viagem.

Ao longo da estrada, de pequenas cabanas feitas de madeiras e plásticos saem cazaques gordinhos, em casacos de pêlo, exibindo orgulhosamente enormes peixes secos.

Avançamos pela estepe que recebeu a família de Gengis, expulsa do seu clã, entregue à esterilidade da terra; a estepe que exibe as estátuas, desenha as sombras dos exércitos do Grande Cão, a libertar a flecha no momento exacto do galope em que as quatro patas do cavalo o impulsionam no ar; a estepe que acolhe os acampamentos, as enormes manadas de cavalos que alimentam os exércitos com o sangue das suas feridas, os exércitos tão ferozes que tinham de ser amarrados; que na guerra cavalgavam ao vento enfrentando os arqueiros, avançando de boca aberta, babando de alegria. A estepe que Tchinghis Khaan estendeu do Mar Amarelo ao Mar Negro, devorando quase toda a terra. A estepe que guarda o seu túmulo, que amortalhou todos os que assistiram ao seu enterro e pudessem identificar a sua sepultura, que permanece secreta.

Seguimos para Norte, Karaganda e depois Kostanay. Neva. Nas enlameadas cidades cazaques tudo tem a cor da ferrugem, tudo é favorecido pelo branco da neve. Levamos o jipe a um reconhecimento de água. Basta um dia para o pó da estepe devorar a pintura, os vidros, a matrícula.

Vingamo-nos dos sacrifícios e aproveitamos os contrastes, nas riquíssimas cidades cazaques (nunca vimos tantos Land Cruiser juntos!) hospedamo-nos em hotel de luxo e fazemos as saunas necessárias para recuperar coragem e seguir para a fronteira com a Rússia. É desoladora, rodeada de erva seca e amarelada, algumas barracas, velhos carros abandonados. No control de passaporte aguardamos entre fila de cazaques.Olham-nos intrigados, olham o passaporte surpreendidos. Talvez porque sorrio para eles sorriem para mim e perguntam:«Kasakhstan normali?», se acho o Cazaquistão bom, agradável. Não, não acho. Nem bom, nem agradável e muito menos normal. Mas continuo a sorrir: «Da, normali.», entreolham-se um segundo e rebentam a rir, em coro inesperado, estridente e triste. Claro, nem eles acreditam, não há nada de normal ali.

Na alfândega seguimos o oficial de fronteira, escada de madeira suja acima, até ao gabinete do oficial bem fardado que nos explica que porque vimos da«China onde como se sabe há muitas drogas»temos de descarregar e scannar toda a nossa carga...

A China!... tivéssemos nós a arte de Temudjin, incendiá-la de seus próprios pássaros.

«Como?!», “aqueles tipos controlam até os telefonemas nas mercearias! E nós já atravessámos todo o Cazaquistão, isto é a fronteira de saída!” - pensamos, mas não dizemos. Começamos o doloroso descarregar do jipe, o oficial acompanha o processo e quando vê as quatro caixas plásticas, grandes, transparentes, onde transporto os cosméticos - sim, eu sei que segundo Genevieve Antoine Dariaux «Hoje em dia não faz muito sentido viajar-se com uma grande quantidade de produtos de beleza, a não ser que se parta numa viagem muito longa para um país primitivo que ainda não tenha sido descoberto por Elizabeth Arden.», mas é esse o caso e é conversa que não tento ter com o oficial de fronteira que pergunta «Cosmetic?», aceno. Os olhos dele abrem-se em censura e desenrola em Cazaque cerrado uma história qualquer sobre eu dever ser obrigada a ir atrás do jipe com esta particular carga às costas. A expressão é dura, ou não brinca ou o humor é duvidoso. O oficial atrás do scanner fixa o écran do computador e parece ter visto numa das minhas malas algo que lhe chama a atenção. Já o imagino a remexer entre a minha roupa interior quando um falha de energia faz o sistema ir a baixo e a ambos os oficiais perder o fôlego para esta empresa de procura ao suborno. Quero dizer, às drogas!

Depois de seis horas na fronteira – mas a estes tempos de passagem já nem damos importância a estas demoras - voltamos a pôr tudo no jipe, sem um único item confiscado, o que muito me surpreende. E claro que se drogas trouxéssemos, drogas levaríamos.

A sorte sorriu-nos, mas avançamos para a Rússia, e já sabemos que quando se viaja assim, sozinho, por terra, onde os quilómetros não podem ser feitos senão por nossa mão, emoções de satisfação e alívio são raras.

E efémeras.

Chien ~ a humildade


Nas ruas de Korgas cheira a legumes podres e excrementos de galinha. Um pequeno fosso entre a estrada e o passeio é contentor para todo o tipo de lixo. Estamos aqui.


O hexagrama:

Acima K’un. O receptivo, a Terra

Abaixo K^en. O imóvel, a Montanha

O julgamento: Aquele que estiver em posição inferior será ajudado, aquele que estiver em posição superior terá sucesso se for humilde.

A imagem: Na terra a montanha, a humildade.

O homem superior subtrai o que é demasiado, aumenta o que é pouco. Ele pesa as coisas e fá-las iguais.»


Sim, mas nós empreendemos a viagem por terra, sozinhos, de Portugal à China, seremos humildes, modestos?

Falhei, não segui o conselho da sabedoria ancestral, ficámos quase um mês aqui, retidos na vila de fronteira da China, a aprender.

Quando era pequena brincava a adivinhações e oráculos. Fazia moedas mágicas, Runas, baralhos místicos e dados enfeitiçados. Nas buscas de esoterismo encontrei o I CHING, o Livro das Mudanças, o Livro Sagrado do Oriente, o clássico chinês escrito pelo lendário imperador Fu Hsi, o manual de adivinhação reescrito por Confúcio.

Mas na moderna China não encontrei sabedoria ancestral, manhãs de Thai Chi, bálsamos de ginsengou imagens Buda feliz. Na China actual todas as cidades ambicionam ser Nova York, e até em Korgas, perdida entre os Altai, há prédios, néons,internet cafes, multibanco, e chocolates Dove. No nosso confortável hotel há um Starbucks Coffee, decorado de pontes, jardins de bambú e flores artificiais, com o slogan «No Lanzhou hotel prove todo o exotismo de um verdadeiro café à italiana».

Na China não joguei as moedinhas mágicas, mas os hexagramas, as alegorias, os julgamentos e codificadas linhas formadas pelo lançar da minha fortuna acompanham-me. Vejo as imagens: o céu, a montanha, o lago.

As alterações do céu reflectem-se no lago artificial do jardim do hotel, da nossa rua vemos o brilho das neves eternas nas montanhas Altai, da janela do nosso quarto as tempestades e dos jardins sujos o pôr-do-sol.

A natureza envia mensagens, imperscrutáveis.

No hotel, chinesas de pele macia de seda e branca de porcelana massajam-me o corpo em movimentos bruscos e desritmados, caminham sobre as minhas costas em perícias Thai, trabalham cada músculo com os seus dedos leitosos. Os saltos altos, a maquilhagem, os sorrisos, denunciam e anunciam outros serviços, pago os dólares da tabela. Na China o que é proibido não existe.

«Nove na posição cinco: Dragão voador nos céus.

Mais longe, para o homem ilustre.»

Para nós o “homem ilustre” é a Cônsul, a funcionária da nossa embaixada em Pequim, o nosso Secretário Geral do MNE.

Viajar por terra, sozinho, e ter problemas para resolver não é a melhor apresentação ao corpo diplomático, mas entre as sonoras gargalhadas de Luiz de Albuquerque Veloso, o CD faz milagres de diplomacia em terras codificadas, e conseguir que aceitem o nosso jipe à guarda da alfândega chinesa e a presença do nosso cão no país são sinais auspiciosos como dragões voadores. Sabemos disso e agradecemos os esforços.

Mas o nosso caminho não é por aqui.

Vendo de perto os placares espalhados pela cidade não é necessário saber Chinês para perceber o aviso, está ilustrada como uma BD a pena - execução pública: no primeiro quadradinho o estádio, no segundo a bancada a encher de pessoas, no terceiro os condenados a tomar os seus lugares, e depois os carrascos, seguindo-se o espectáculo final, a bala na nuca.

Teimamos ainda «atravessámos já tantos países,não são os chineses que nos vão derrotar!». A falta de modéstia continua.

Sentados no restaurante do hotel, entre cabeças inteiras de animais, massas de arroz e saladas frias picantes, já experimentámos, por falta de pontaria no menú, quase todo o tipo de pratos uigures. Aqui tudo é surpresa, só se escreve em Chinês e é impossível comunicar noutra língua.

Na culinária uigur todos os pratos têm simbolismo: ao servir a cabeça de ovelha a orelha deve ser cortada e dada à pessoa mais nova à mesa, para que oiça os mais velhos; o pedaço perto do olho à pessoa importante para nós, que fique atenta; uma parte da testa a quem tiver um desafio pela frente, para que seja inteligente na resposta...

Mas de certo que em Mandarim não existe a palavra “negociar”...

Ao som da música que canta «Chié-chié Mao»(obrigado Mao), olhamos no poster da parede, daqueles em que a água até mexe, a paisagem exótica de uma praia de areia branca, mar turquesa e sombras de coqueiros... e neste mesmo momento, com um brinde de aguardente de lagarto baijiu, decidimos seguir para Sul! Moçambique, aqui vamos nós! Foi a Estrada que decidiu, não sabemos ainda como, mas vamos!

No nosso 67º dia de viagem engolimos o orgulho,acendemos os insensos a Buda e fazemos as nossas preces, preparamo-nos para Fu - O Retorno,voltamos para o Cazaquistão. Repetimos o desfile de chegada; carregados, de Ra à trela, fazemos a pé os três quilómetros até à fronteira.

Na alfândega mais uma vez descarregamos e carregamos toda a nossa carga, são verificados documentos e finalmente têm oportunidade de admirar o passaporte do Ra, que faz sucesso. Pagamos dois euros e meio por dia, de estacionamento do jipe! e ainda solenemente declaram que é este preço porque gostam de Portugal... para outros é oito euros. Quais outros? Que outros veículos estão à guarda deste fronteira?

A alfândega fecha para almoço, aguardamos. «A lei aqui é muito rígida» mas durante o intervalo de almoço as filas de cazaques e chinesas, carregadas de infinitos caixotes com todo o tipo de mercadorias, aproveitam a alfândega deserta de oficiais. Vemos caixas de papelão a deslizar pelo chão branco, caixotes com pés, sacos de duas cabeças, mandados parar por oficias zangados, de volta ao trabalho depois de uma tigela de arroz chau-chau.

«Há três meios de ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.» Confúcio


Precipitados na estepe

O acidente.

Já se questionaram sobre o que vão dizer uns momentos antes da morte?

Eu sei, vou dizer:

Não! Não! Não! NAAAAAÃOOOO!



No nosso 45º dia de viagem viajamos a 100km/h na estrada entre Astana e Almati. A única estrada no Cazaquistão que é digna desse nome. Aproveitamos o tapete plano e limpo e descansamos os olhos fartos de ver buracos, os pés doridos de travagens súbitas, a alma sofrida com a incerteza do Norte.

Está frio. Anoitece. De repente, vindo sabe-se lá de que conto tártaro ou tétrico, aparece-nos, à frente do jipe um homem de braços no ar, a acenar. Telmo grita a meu lado: «Cuidado!»

O pânico trava a fundo, a inconsciência vira o volante todo para a esquerda, o jipe entra completamente na contra-mão, e à visão das luzes dos que aí circulam uma guinada desesperada para a direita faz o resto, perco completamente o controle das várias toneladas de Toyota. Voamos, cuspidos para fora da estrada.

Do alcatrão para a estepe há um ribanceira que serve de rampa para um salto prodigioso. Durante o voo o jipe balouça para a esquerda e para a direita indeciso sobre o lado por onde prefere capotar. Prevejo o embate e em estranha premonição sinto que vou bater com a cabeça e o ombro esquerdo no vidro da janela. E que vai doer.

Dizemos as que parecem ser as nossas últimas palavras e embora deseje ouvir declarações de amor só oiço:

«NÃO! m****! Partiste o jipe todo!»

«Eu?...», penso. As minhas mãos ainda agarram com força o volante, não me dói nada, o jipe não capotou, aterrou na estepe na latitude 50º07’N e longitude 72º54’E, depois de um salto de 20 metros, não me parece assim tão mal.

Abro a porta e encontro o homem que não matei, o cheiro a vodka chega muito antes dele... Eu e Ra estamos em silêncio, Telmo desfaz-se em palavrões e lições de condução e eu desfaço-me finalmente em lágrimas.

Pára um carro, e outro, e outro, todos os pequenos e magros cazaques se preocupam connosco. Ligam o motor, que trabalha, «normali», dizem. Hum... não sei se a semelhança fonética é também semântica mas não me parece que este voo possa deixar algum veículo “normal”.

Os cazaques despem os enormes casacos decorados com peles e forrados de pêlo, insistem para que os vista. Estendem-nos telemóveis para fazermos chamadas. Mas a milhares de quilómetros de casa ligar a quem? Ligamos ao nosso bom amigo entendido em línguas eslavas, parece que vão chamar um reboque. Por esta altura já mais de dez carros pararam e todos querem ajudar. Vou trocando de casacos.

Testo o conforto de versões modernos de shapan,kaptalshabushekpenishik... as vestes tradicionais cazaques, conhecidas pela cuidada escolha dos materiais adaptados às condições da vida nómada e exigências do clima.

Finalmente aparece o enorme e ferrujento reboque e, logo a seguir, um carro da polícia. Um dos polícias fala Inglês mas está mais excitado com o facto de conhecer estrangeiros do que preocupado com o acidente. O tártaro embriagado foi afastado dali.

O reboque não tem como descer a ribanceira íngreme. Os cazaques de camuflado a cheirar a carne frita estudam possibilidades. Conseguem finalmente arrastar o jipe até à estrada, amolgando jantes e pára-choques. O jipe funciona! Anda. Mas perdemos dois pneus e não há onde comprar novos. Oferecem-nos uma boleia até à “cidade” para remendar estes. Remendar!? Bom, seja.

E agora, como fazemos? Vamos os três? Têm medo do Ra e o jipe não pode ficar aqui. Telmo vai, eu fico, com Ra, medo e escolta policial.

A 71 quilómetros dali, numa garagem no meio da sucata, os pneus são remendados numa velha banheira de esmalte.

Daí a uma hora pagamos o serviço e avançamos, lentamente. O jipe dança nos eixos. Trocamos poucas palavras.

Junto a uma bomba de combustível um néonvermelho anuncia um motel. Tem mau aspecto mas estamos cansados, sujos, gelados, zangados e esfomeados. Entramos.

Em cima do balcão um pequeno bibelot, um pastor alemão, segura nos dentes as boas vindas, “welcome”. A recepcionista sorri e mostra-nos fotografias (!) da lyux. Sim, já sabemos que em países de “alma eslava” é só luxos! Aceitam o Ra, aceitamos o quarto sem olhar.

Esta que se assemelha levemente à minha mãe, adivinha-nos os desejos e propõe-nos servir o jantar no quarto. Eu quero colo mas peço carnes fumadas, arroz e cerveja.

Subimos para a suite. A porta está aberta, convidativa e o quarto está quente. Nas paredes amarelas sobressai um arranjo de flores artificiais. A luz suave e colorida envolve uma cama enorme decorada de almofadas de seda dourada. Na pequena sala com sofás e tapetes fofos a televisão de écrã plano mostra um canal oficial cazaque, onde meninas de longas tranças pretas e meninos de bigode tentam representar. Há chinelos de plástico e dois roupões floridos, de seda barata, dos nossos tamanhos. O conforto é relativo. Ra instala-se no sofá grande.

Neva. No dia seguinte os pneus do jipe estão em baixo. Igor, o dono do motel, compadece-se dos dois estrangeiros mal vestidos para o frio e sem jeito para mecânica, em luta com macacos e pneus sem ar, e põe os empregados a ajudar-nos. Vamos directos aoToyota Service de Karaganda onde eu e Ra esperamos ao frio na rua: «Tem frio? É assim, é o Cazaquistão!», sorrio sem vontade. É difícil convencê-los a ver o jipe «normali, normali» vão dizendo. «Normali não! o jipe voou assim! E depois aterrou assim!», vamos gesticulando. Por fim Vladimir acede, mas vai avisando que embora seja mecânico da Toyota não estamos na Europa, os meios são poucos. E tudo lhe parece estar “normali”!

- «Aqui não há pneus novos»

- «Não há?!»

- «Destes nem na capital»

Na sucata escolhemos os que têm melhor aspecto.

Oleg, o dono da oficina nem acredita que tem dois clientes estangeiros, somos os primeiros que por aqui aparecem. Tira-nos fotografias, oferece serviços gratuitos, limpezas ao jipe, chás e biscoitos para Ra.

À noite em comemorações com caviar, foi a vez de Telmo ser derrotado pelo vodka. Felizmente não foi para a estrada...

Seguimos para Almati pela estrada coberta de fina camada de neve, escorregadia.

O monstro da Ásia central



Na Ásia Central vive um monstro.

Enorme. Côr de máquina abandonada à chuva. De pele escamosa, esburacada. Pêlos ruços, eriçados, cobrem todo o seu corpo. Tem sangue espesso, oleoso. Dos seus poros saem chamas, gazes e cheiros mortais.

O seu corpo é ossudo, seco, duro. Os ossos expostos em mil fracturas. Ossos que não compõem um esqueleto. As suas veias estão puxadas à superfície, como tubos quentes. O monstro tem os olhos vazados, os tímpanos furados, as cordas vocais cortadas. Da sua baba formam-se lagos, mares. Mortos, infectos, radioactivos.

O monstro está adormecido. Sofre de febres, temperaturas positivas e negativas em suores e alucinações.

Visitamos o monstro.

Percorremos a sua coluna de rectas mortais, subimos e descemos cada vértebra sinuosa. Como um parasita.

Na Ásia Central vive um monstro chamado Cazaquistão. Pertence à extinta espécie soviética. Votado ao abandono, afastou-se como um pária e perdeu-se, cego de doenças e sonhos de independência.

Nós não sabíamos.

Para nós o Cazaquistão era apenas um enorme “istão”, daqueles que no mapa vizinham a ainda maior “mãe” Rússia. Kirguistão, Turqmenistão, Uzbequistão...

Para o nosso “Oráculo”, Olena, a funcionária russa da agência de viagens em Lisboa, é uma enorme aldeia.

Para outros é só um país riquíssimo, no seu subsolo, ao que parece sem qualquer exagero, é possível encontrar todos os elementos que compõem a tabela periódica do químico russo Dmitri Ivanovitch Mendeleev.

Outros consideram-no uma piada digna de filme de Hollywood.

A Rússia é o maior país do mundo. Nada ao pé desta mancha parece grande. Mas os seus filhos desenham-se, longos, presentes, a seu lado.

No Google Earth o Cazaquistão é apenas uma mancha branca. Na realidade é um buraco negro.

Não sabia quase nada sobre este país. Não sabia.

Na nossa ignorância escolhemos atravessar o Cazaquistão uma vez, para alcançarmos a China, evitando as máfias do Extremo Oriente russo.

Mas para nosso desespero, o destino de viajantes obrigou-nos a atravessá-lo de novo, da China para a Rússia, em busca do mar Negro que banha a Turquia.

Não sabíamos que só sob maldição se visita este monstro. E que só no mesmo estado, surdo, cego e mudo, se pode sair dele incólume.

Consultando o diário de bordo, entrámos na estepe cazaque no dia 11 de Outubro de 2006 e chegámos à fronteira chinesa oito dias depois. Voltámos a atravessar o país entre 6 e 11 de Novembro. Os factos estão assim registados, mas não foi assim.

Na verdade, perdemos a noção de tempo e de espaço mal entramos no Cazaquistão. A estepe interminável transporta-nos para uma dimensão irreal onde os dias não passam e as distâncias não se vencem.

Passada a fronteira anoitece. A lua ilumina timidamente a estrada que tomamos, ou melhor, que tentamos tomar.

Estradas. Quem viaja por terra precisa de estradas. Penso que não haverá país com melhores condições para estradas. Plano e rico em petróleo. Mas que sei eu de engenharia e política?

A estrada é alcatroada. Ou melhor será dizer que foialcatroada. É um longo e recto tapete de buracos, tão grandes que parecem ter sido feitos com pá e picareta, o jipe inteiro caberia neles.

Não se vê uma placa de sinalização.

Esta estrada destruída impede-nos de avançar. Aos dias sucedem-se as noites e só a lua ilumina o nosso desnorte. Sem cama, sem comida, perdidos.

Seguimos sem dormir, olhos forçados tentam ler a estepe e o complicado mapa. Nada senão enormes rectas que parecem não ir dar a lado nenhum. Enganamo-nos no caminho. Ou é o monstro que se rebola no sono e realinha os ossos que percorremos?

Avançamos lentamente, muito lentamente. Não parece que atravessamos um país. Não tem marcas de país. A sensação de mundo a perder de vista, a visão da descomunal paisagem plana, seca, estéril é impressionante.

Sinto que passámos anos perdidos nesta estepe. Que na estepe perdi a fala, ganhei os medos. Os saltos altos e as roupas femininas fecharam-se nas malas perfumadas. Transformo-me como uma Górgona enfeitiçada. Escondo a pele seca e as serpentes dos cabelos em turbantes empoeirados.

O pó seca os sorrisos e fixa o olhar rasgado de espanto, de prostração, de medo.

Silêncio, desolação.

Há muitos quilómetros que observamos automóveis queimados na berma da estrada. Velhos Lada são aqui deixados como altares em homenagem aos seus ocupantes perecidos no desigual combate com as armadilhas da estrada. São túmulos na estepe que transformam a nossa viagem num triste cortejo fúnebre.

Dizem-nos que neste país não há doenças como o cancro ou a sida, porque os médicos estão proibidos de as diagnosticar. Que não há jornalismo porque a informação é controladíssima pelo governo. Que há famílias, aldeias inteiras refugiadas não sei de que guerras a viver em vagões de comboios abandonados algures na estepe estéril. Que há fome, aldeias onde os pescadores de esturjão são obrigados a roubar peixe para alimentar as famílias. Que a riqueza de petróleo é tal que não é necessário perfurar poços, a terra transpira-o e os seus vapores provocam extensas áreas de mil fogueiras de pura combustão. Que há febres e pestes que não existem na Europa desde a época medieval. Que numa ilha do Mar Cáspio se queimam corpos para impedir o contágio de não se sabe que epidemias. Que o despovoado Mar Cáspio morre. Que há minas de urânio a céu aberto e campos de lixo nuclear abandonados onde há o suficiente para fabricar dezenas de bombas...

Terra dos cazaques. O significado da palavracazaque é incerto, independente/ rebelde/ errante/ bravo/ livre. Irónico, não é?

Cazaquistão é um país monstruoso. De tamanho, de desolação, de abandono.

Estepe a perder de vista. Ao longe brilha a chama dos poços de petróleo.